domingo, 13 de julho de 2014

Indústria tem déficit record


A crise na Argentina e a perda de competitividade dos produtos brasileiros deve levar a indústria brasileira ao maior déficit comercial da história. No primeiro semestre deste ano, o saldo da balança de manufaturados foi negativo em US$ 56 bilhões, maior que os US$ 54,72 bilhões de janeiro a junho de 2013. Nos últimos 12 meses até junho, o déficit atingiu US$ 106,44 bilhões, superando o recorde negativo de 2013, quando as importações de bens industrializados superaram as exportações desses itens em US$ 105 bilhões.

Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que as vendas externas de manufaturados somaram US$ 38,08 bilhões no primeiro semestre, uma queda de 11% ante o mesmo período do ano passado. Uma retração bem mais forte que nas importações, que somaram US$ 94,06 bilhões e recuaram apenas 3,5% no período, apesar do baixo crescimento da economia brasileira.
Parte da queda das vendas externas pode ser explicada pela exportação fictícia de duas plataformas de petróleo, no valor de US$ 2,43 bilhões, nos primeiros seis meses do 2013. Com isso, a base de comparação ficou desfavorável pois ainda não houve registro de plataformas neste ano. Ainda assim, analistas de comércio exterior afirmam que a situação é crítica e não há solução de curto prazo.
Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que os itens com maiores quedas nas exportações são automóveis de passageiro, partes e peças para veículos e tratores, motores e veículos de carga, reflexo direto da redução do comércio entre Brasil e Argentina. Esses produtos tiveram uma queda de US$ 1,58 bilhão em relação ao primeiro semestre do ano passado.

"O maior mercado para os nossos manufaturados é a Argentina. O problema é a grande concentração das vendas de automóveis para a Argentina", afirmou o diretor de desenvolvimento industrial da CNI, Carlos Abijaodi. As vendas brasileiras ao parceiro do Mercosul tiveram um recuo de 19,8% no primeiro semestre deste ano.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, acredita numa queda entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões nas exportações do Brasil para Argentina este ano. Segundo os cálculos da AEB, também haverá redução em torno de US$ 5 bilhões nas vendas externas de plataformas de petróleo. Em 2013, sete plataformas somaram US$ 7,7 bilhões. A AEB espera apenas duas em 2014. "Este ano em termos de manufaturados está perdido."

Castro destacou que as exportações de manufaturados estão no mesmo patamar de 2008. Lembrou também que aparelhos celulares já figuraram no topo da lista dos mais exportados e perderam destaque. "É muito caro produzir aqui. Grande parte da produção foi transferida para o México."

O presidente da AEB também não vê motivos para comemorar o aumento de 11,4% nas vendas aos EUA no primeiro semestre. "Se tirar avião e petróleo, volta à estaca zero." Lis Valls, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que o déficit da balança comercial da indústria de transformação é bem maior que o registrado pelo governo.

Para Lia, o resultado da balança de manufaturados reflete a falta de competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional e a baixa produtividade do setor.

Em um cenário de queda dos preços de commodities, a balança comercial brasileira está mais dependente dos produtos básicos. Pela primeira vez desde 1980, esses itens responderam por mais da metade das vendas ao exterior. No primeiro semestre deste ano, essa categoria de produtos com menor valor agregado atingiu 50,8% do total exportado. Por outro lado, a participação das vendas externas de manufaturados caiu para 34,4%. É a menor participação na pauta exportadora para os primeiros seis meses do ano desde 1980, quando tem início a série histórica do governo.

O setor externo brasileiro tem encolhido por causa da lenta recuperação da economia mundial e do baixo ritmo de atividade econômica no Brasil. A corrente de comércio caiu 2,8% de janeiro a junho ante o mesmo período do ano passado. Para os analistas de comércio exterior, o governo brasileiro precisa apostar em acordos bilaterais de comércio, investir em infraestrutura e na redução dos custos da produção. Uma agenda antiga, mas o Brasil ainda não conseguiu fazer o dever de casa.

Fonte: O Estado de São Paulo - 13/7/2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Deixem o Brasil fora disso


Sob o impacto da estonteante goleada de 7 a 1 que a seleção alemã infligiu ao time nacional, não faltou quem se pusesse a atribuir o vexame às mazelas brasileiras, de que o resultado seria espelho fiel. Associou-se a catástrofe no Mineirão, por exemplo, ao "atraso civilizatório" do País, numa referência implícita aos padrões superlativos da Alemanha em praticamente todos os campos. Chegou-se a lembrar que, no cômputo de Prêmios Nobel conquistados, a grande nação europeia esmaga o Brasil por 103 a 0. A reação é compreensível, mas nem por isso menos equivocada.

É da condição humana, desde sempre, encontrar um sentido para fatos e situações que desafiam a lógica, o senso comum e as expectativas baseadas em experiências recorrentes. Daí, entre inumeráveis outras consequências, nascem as teorias conspiratórias, que imputam ações e acontecimentos adversos ou desconcertantes a planos urdidos nas sombras por quem quer que deles pretenda tirar proveito. A isso se chama em ciência "relação espúria". Nela, eventos tidos como causas e efeitos ou não se conectam de forma alguma ou, quando sim, só depois de passar por um sem-fim de elos, como os de uma quilométrica corrente.

Uma de suas manifestações mais comuns é a chamada "sociologia de botequim" - a confecção de teorias tão fáceis quanto mambembes sobre fenômenos sociais incomuns ou perturbadores. No caso do baque de Belo Horizonte, o mais certo, talvez, seja falar em sociologia de velório. Enlutados e inconformados com a perda repentina, absurda, do parente ou amigo próximo, alguns dos presentes tentam aquietar o seu pesar dando ao passamento razões que a medicina teria mais razões ainda para recusar. Tamanha a envergadura do colapso da seleção que muitos não conseguem explicá-la pelo que se passou, ou deixou de se passar, no gramado.

Para esses, o futebol - nisso incluído não só o jogo tal qual se desenrolou, mas ainda a qualidade dos times, o preparo de cada um, as táticas adotadas pelos respectivos treinadores, o seu grau de competência e tudo o mais que transcorre nos bastidores dessa multimilionária atividade - não dá conta do ocorrido. É preciso, afirmam, olhar em volta. Simples assim: sendo o Brasil um poço de problemas, nada mais natural que neles tenha se afogado o escrete ao enfrentar a representação de um país que teria resolvido todos os seus. O corolário consolador é que o naufrágio, quem sabe, sirva de choque de realidade para a superação das nossas piores carências.

Há, porém, um "pequeno detalhe": não foi o Brasil quem tomou uma sova histórica anteontem, mas os 11 jogadores escalados por um técnico que, assim como eles, trabalha sob contrato para uma entidade privada, a CBF, que, por sua vez, existe para dar lucro tanto quanto as suas congêneres do mundo inteiro, reunidas todas na famigerada federação da famiglia Blatter, a Fifa. Além disso - e à parte a manifesta superioridade tática do adversário - o desfecho foi literalmente excepcional. A sua causa evidente foi outra raridade, pelo menos em jogos entre seleções da primeira liga mundial: os 4 gols alemães em 6 minutos que entorpeceram o time de Luiz Felipe Scolari.

A chance de isso se repetir, joguem os selecionados dos dois países quantas vezes possam até o fim dos tempos, é ínfima. No acumulado desde 1963, os canarinhos colecionaram 12 vitórias em 22 embates, ante 5 dos rubro-negros e igual número de empates. Isso posto, o que diriam os que culpam os males do País pelos aberrantes 7 a 1 se a esquadra de Joachim Loew não tivesse ido além de uma vitória por 2 ou 3 gols de diferença? Uma coisa, portanto, é a ilógica que torna o futebol fascinante, como observa o técnico argentino Alejandro Sabella. Outra, o Brasil. De mais a mais, em matéria de más notícias, o governo já se incumbe de atingir os brasileiros com uma sequência interminável.


Para a vida real da população, a derrota diante dos alemães, conquanto "humilhante", como a imprensa do mundo inteiro se apressou a qualificá-la, é de uma irrelevância atroz perto de outro resultado dessa funesta terça-feira. A inflação em 12 meses, medida pelo IPCA, chegou a 6,52%, arrebentando o teto da média estipulada pelo governo. Goleada é isso.

O ESTADO DE S.PAULO - 10 Julho 2014 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Lula e a Copa



Excitado com a chegada do Brasil às oitavas de final, anabolizado pelo almoço em que matou a sede, Lula aproveitou o comício em Curitiba para fazer da Copa da Roubalheira um instrumento de caça ao voto. O vídeo registra o trecho em que o palanque ambulante, neste 3 de julho, propõe que a Fifa transforme numa Copa sem Fim o Mundial disputado a cada quatro anos:

“Ai gente, como tá boa a Copa do Mundo, gente do céu! A gente não vê mais aqueles programas da tarde, que morre gente toda hora, não vê mais, puta merda, como era bom ter jogo à uma, ter jogo às quatro, o povo tá mais bem humorado, ó a cara de vocês como é que tá, mais feliz…puta merda, porque tem programa que a gente assiste, dá vontade da gente sair de casa, se trancar embaixo do cobertor e ficar lá”.

O embusteiro vocacional não desconfiou que havia uma Alemanha no meio do caminho. Nem poderia imaginar que o carnaval temporão seria bruscamente interrompido por 7 a 1. Na tarde em que o Brasil disputará com a Argentina ou a Holanda um improvável terceiro lugar, vai ficar trancado em casa, escondido sob o cobertor. E talvez troque palavrões por orações.


Se cumprir a promessa de ver a final no Maracanã, Dilma poderá medir a taxa nacional de felicidade com a reprise da frase que abre o falatório de Lula: “Ai gente, como foi boa a Copa do Mundo, gente do céu!” Estará no lucro se escapar do coro que ouviu no Itaquerão. Mas a vaia será mais estrondosa que a goleada que encerrou o Carnaval temporão no Brasil Maravilha.
Texto da Augusto Nunes.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Bola na trave


A Copa do Mundo vai bem, dentro e fora dos estádios. Algumas previsões pessimistas, as minhas incluídas, baseadas em algumas evidências, não se confirmaram. Nesse sentido, Dilma tem razão em afirmar que a Copa, ao menos até agora, desmentiu os pessimistas. Mas enquanto o clima no País é de grande unidade, teoricamente favorável a falar dos anseios nacionais, Dilma aposta na fragmentação. Os dirigentes do PT iniciaram o discurso e ela o prolonga com verbos que me deixam perplexo. 

Outro dia declarou que ninguém iria vergá-la. Na estrada nem sempre posso acompanhar tudo.

Sinceramente, não conheço ninguém que queira vergar a presidente da República. Repassei os principais acontecimentos e não vi na oposição nada parecido com a ideia de vergar Dilma. Um verbo desse tipo é mais adequado, talvez, para relações hierárquicas ou na indústria de construção. Numa atmosfera democrática ninguém verga ninguém.

Um dirigente do PT lançou uma nota acusando nove jornalistas de disseminarem o ódio. Os textos desses jornalistas são públicos e o que há em comum entre eles é uma visão crítica do governo. A organização Repórteres sem Fronteiras protestou contra essa nota do dirigente do PT. E a reação dos parlamentares petistas foi afirmar que a Repórteres sem Fronteiras não deveria intrometer-se em assuntos internos do Brasil. Na verdade, eles estão propondo uma revolução que transformará a entidade em Repórteres com Fronteiras.

Os cubanos também pensam assim. Na leva de 70 intelectuais presos em 2004 havia muitos repórteres que cruzavam a ilha de bicicleta em busca de notícias. Acompanhei a trajetória de Raúl Rivero, poeta e escritor que dirigia a Cuba Press. Foi acusado daquelas coisas de sempre: ligações com o imperialismo, etc. Tive a oportunidade de escrever uma pequena introdução à edição em português do seu livro Provas de Contato. Rivero é um homem que ama Cuba e seu povo, no entanto, teve de se exilar na Espanha.

Não se trata de comparar a situação brasileira com a cubana. Mas de ter a noção de que esse desejo de controle da informação é típico de governos autoritários. Quem o conhece minimamente, como a Repórteres sem Fronteiras, se assusta e protesta ao ver a semente ser plantada.

Como explicar a reação do PT diante de um quadro que poderia favorecê-lo, uma vez que grande parte dos problemas previstos não ocorreu, ou bateu na trave? Isso não significa que não tenha havido problemas. Mas pesquisas com estrangeiros revelam um nível de satisfação e de críticas muito parecido com o dos turistas que nos visitam em épocas mais calmas.

Essa perda de contato com o momento da sociedade e a fixação numa áspera rivalidade política mostram também uma falta de horizonte que lembra o slogan dos punks em Berlim: “No future”. Claro que os petistas não concordam com essa análise. O horizonte, para muitos deles, é aprofundar o controle e levar adiante os grandes destroços do socialismo, uma espécie de Titanic que no século 20 nos deixou, os sobreviventes, agarrados a precárias balsas no oceano da História.

Controlar o Parlamento não basta. Ter maioria no STF, também não basta. O discurso do ódio visa a transformar a campanha eleitoral em pancadaria e manter a imprensa sob a permanente ameaça de controle.
Mas o discurso do ódio vai bater na trave.
No momento em que escrevo o Brasil avançou para as quartas de final na Copa. O País mostrou-se hospitaleiro e despendeu enorme energia estimulando a seleção de futebol. Um vínculo nos uniu de ponta a ponta.

A tragédia é que a política se mostra incapaz de mobilizar parte dessa energia, achar novos vínculos nacionais em torno de grandes temas, como o combate à pobreza e à corrupção, a racionalização da imensa máquina que trava o País. Enfim, algumas Copas em que estamos lutando ainda pela classificação. Com otimismo de torcedor, ainda espero que este Mundial tenha reflexos na política e se aproveite o momento especial para discutir o futuro do Brasil. Por enquanto, com essa de vergar ou não vergar estacionamos na construção civil.

Sei que não é conveniente lembrar isto em período de festa, mas as contas do governo federal em maio foram as piores da História. Coligações e convenções desenrolaram-se no período e passaram quase em branco. Sorte delas. Não foi um bom espetáculo, sobretudo o das coligações. Pornopolítica, bacanal, foram chamadas de tudo e, apesar do apelo erótico, ninguém se interessou por elas.
Atacante do “pior time do mundo”, o Íbis Sport Club, Mauro Shampoo disse-me numa entrevista: “O único título que ganhei na minha carreira é o de eleitor. O que fazer com ele?” Muita gente faz a mesma pergunta nas ruas. Não na expectativa de ouvir a sugestão de uma outra candidatura, mas apenas como pretexto para se lamentar, como se a esfera da política fosse algo fora de controle, marchando para um não acontecimento, sintetizado no “tudo dá no mesmo”.

A sociedade quer mudanças, seria importante definir as principais e transformá-las num grande debate nacional.
Ainda faltam alguns jogos para o fim da Copa. Mas quando soar o apito final começa a contar o tempo para encarar este momento que a sociedade brasileira vive, empolgada com sua seleção, mas sem encontrar no universo da política outros motivos de orgulho de ser brasileiro. E com muito amor, porque o ódio não se encaixa na canção.

A Copa do Mundo trouxe tantas surpresas dentro de campo que o sentido do inesperado prevaleceu em muitas partidas, mostrando que no gramado tudo pode acontecer. Essa imprevisibilidade do futebol transplantada para nossa vida nacional é o que ainda alimenta a esperança de este país mudar.

Nota do autor: Este artigo foi escrito antes da queda do viaduto na zona norte de Belo Horizonte, cidade por onde passei no dia da queda, mas tarde para incluí-la. Isso constará do balanço da segunda fase da Copa.


Fernando Gabeira - Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo - 04/07/2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Crise na indústria se agrava



A indústria vai mal, o investimento recua e 2014 deve ser marcado por um novo fiasco na economia, apesar da retórica triunfal da presidente Dilma Rousseff e de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega. A crise industrial já se reflete no setor de serviços, prejudica o emprego em geral e, cada vez mais, o crescimento econômico, assim como a exportação, depende da agropecuária. A produção industrial caiu 0,6% de abril para maio, recuando em 15 dos 24 ramos cobertos pela pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor produziu em maio 3,2% menos que um ano antes. De janeiro a maio, o resultado foi 1,6% inferior ao de um ano antes. O crescimento acumulado em 12 meses ficou em apenas 0,2%, mas nem esse dado ligeiramente positivo pode justificar algum otimismo. A média móvel trimestral caiu 0,5% no período até maio. Nos três meses terminados em abril a queda havia chegado a 0,3%.

Mas os números mais preocupantes são os da fabricação de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, porque confirmam a estagnação da capacidade produtiva. O ministro da Fazenda prometeu várias vezes, nos últimos anos, um novo padrão de crescimento econômico. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) seria puxada principalmente pelo investimento produtivo. Mas essas palavras nunca se traduziram em fatos. Aos empresários urbanos têm faltado confiança e segurança para investir. Ao governo tem faltado competência para converter em obras, com a rapidez necessária, seus programas de ampliação e fortalecimento da infraestrutura. Os balanços do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) têm sido sempre vitaminados pela contabilização do dinheiro aplicado em moradias.

Pelos novos números do IBGE, em maio a produção de bens de capital ficou 2,6% abaixo da de abril e foi 9,7% inferior à de um ano antes. De janeiro a maio o total produzido foi 5,8% menor que o de igual período de 2013. Em 12 meses ainda se acumulou uma expansão de 4,1%, mas esse dado fica bem menos impressionante quando se examinam os números do passado recente. A produção de bens de capital cresceu 5% em 2011 e permaneceu praticamente estagnada nos dois anos seguintes, com queda de 11,2% em 2012 e aumento de 11,6% em 2013.

A expansão de 4,1% nos 12 meses terminados em maio parte, portanto, de uma base achatada e muito próxima do nível de 2011. Em outras palavras, o setor derrapou durante a maior parte do governo da presidente Dilma Rousseff. O resultado de janeiro a maio deste ano, 5,8% inferior ao dos mesmos meses do ano passado, mostra a continuidade da crise no setor e confirma a baixa disposição de investir do empresariado.

As cifras do comércio exterior complementam esse quadro. De janeiro a junho, foram gastos US$ 21,14 bilhões com a importação de bens de capital, 5,1% menos que no primeiro semestre do ano passado.
O cenário de produção em queda também se completa com a redução da despesa com matérias-primas e bens intermediários importados. O valor gasto, US$ 50,36 bilhões, foi 1% inferior a de um ano antes. Internamente, a produção de bens intermediários entre janeiro e maio foi 1,8% menor que a dos mesmos meses de 2013. Em maio, ficou 2,2% abaixo da estimada no ano anterior.

A crise da produção industrial e a redução das importações confirmam o esgotamento da política baseada no estímulo ao consumo. Analistas haviam apontado há bom tempo o fracasso inevitável dessa política.
A disposição de compra dos consumidores pode animar a produção durante algum tempo, mas é preciso mais que isso para manter a indústria em atividade e – mais importante – para expandir sua capacidade produtiva e seu poder de competição internacional.

O governo errou no diagnóstico e na estratégia. Além disso, criou insegurança entre os empresários com intervenções inábeis e medidas improvisadas. Também as medidas protecionistas, aplaudidas por alguns setores, tiveram efeito negativo, porque desestimularam a busca de eficiência. O balanço é claro e está sintetizado nas séries de números do IBGE.


O Estado de S. Paulo – 03/07/2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Nacional-Socialismo petista


Muitos já sabem da tal “lista negra” que o vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, publicou no site oficial do partido, com o nome de nove colunistas ou formadores de opinião que seriam “inimigos da pátria”. O que mais choca nesse episódio nem é a atitude do PT, esperada para quem não é alienado e não hibernou no Alasca nos últimos 12 anos. O mais impressionante é o ensurdecedor silêncio da imprensa.
Algo desta feita era para despertar reação firme de todos os principais defensores da liberdade de imprensa no país. Era para ser tema de editoriais, para ter uma notícia estampada na primeira página, chamando a atenção de todos os leitores para a absurda tentativa de intimidar críticos do governo. Mas não tivemos nada disso. Tivemos um conivente silêncio. O descalabro foi simplesmente ignorado, como se não fosse notícia relevante.
Reinaldo Azevedo, um dos citados na lista do PT, usou sua coluna de hoje na Folha para fazer seu alerta, chamando as coisas por seus nomes. O paralelo é evidente: estamos diante de uma prática autoritária, típica de regimes que jamais toleraram as divergências democráticas. Os nazistas agiram da mesma forma:
É calúnia e difamação, mas isso é para o tribunal. Falas como a do sr. Cantalice têm história. Fiz uma tradução do discurso proferido por Goebbels no dia 10 de fevereiro de 1933, 11 dias depois de Hitler ter assumido o cargo de chanceler. Seu alvo era a “imprensa judaica”, que acusava de “ameaçar o movimento Nacional-Socialista”. Advertiu: “Um dia nossa paciência vai acabar, e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!” Cumpriu a ameaça.
À lista de Cantalice seguiu-se um previsível silêncio na própria imprensa –vai ver somos mesmo os “judeus insolentes” da hora. Mais uma advertência de Goebbels para quem está aliviado por ter sido poupado: “E, se outros jornais judeus acham que podem, agora, mudar para o nosso lado com as suas bandeiras, então só podemos dar uma resposta: ‘Por favor, não se deem ao trabalho!’”.
Pronto! Já escrevi o que queria, menos uma coisa: “Goebbels, vai tomate cru!”.
Os jornalistas acovardados que tentam se esconder, se calar ou simular uma “imparcialidade” e um “neutralismo” para não entrar para a lista do PT agem como todos aqueles que fizeram vista grossa ao avanço nazista, na esperança de que não fossem alvos da horda dos bárbaros. Preciso mesmo lembrar que não funcionou?
Fecho com a célebre passagem do pastor alemão Martin Niemoller:
“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.”
Há, também, caso a mensagem por algum incrível motivo não tenha ficado clara o suficiente, o poema de Eduardo Alves da Costa, “No Caminho, com Maiakóvski”, que diz:
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
 
Em regimes autoritários que incitam a perseguição aos “inimigos”, o mais perigoso nem sempre é o próprio governante. Pode ser o vizinho rancoroso, o rapaz ressentido ao lado, o fracassado invejoso, o jovem “revolucionário” imbuído do fanatismo ideológico, o soldado da seita, o vândalo mascarado em busca de um pretexto para extravasar toda a sua fúria e rebeldia, seu niilismo e seu ódio. Eis aí o ovo da serpente…
Rodrigo Constantino

terça-feira, 1 de julho de 2014

Duas décadas de estabilidade



Completa 20 anos hoje o Plano Real, o programa de reformas econômicas e de estabilização da moeda que pôs fim à indexação da economia, livrou o país das armadilhas de uma hiperinflação e permitiu aos brasileiros conviver com duas décadas consecutivas de estabilidade, depois de cinco tentativas fracassadas.

Isso ocorreu porque o programa foi adotado de forma engenhosa e contou com o respaldo de uma série de reformas, o que teve como efeito colateral a eleição do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso para a Presidência da República. Independentemente de conotações políticas, que se ampliam com a coincidência entre o aniversário e a campanha presidencial, o fato é que o Real se transformou num patrimônio a ser preservado, o que depende agora da ousadia de um novo ciclo de reformas.

Não foram poucas as dificuldades que antecederam a implantação do plano e as que se mantêm até hoje. No início dos anos 90 do século passado, o custo de vida chegou a alcançar 83% ao mês e quase 5.000% em 12 meses. No dia a dia, o descontrole implicava tensão permanente, pois exigia maratonas diárias aos bancos, numa tentativa de preservar os ganhos salariais, e aos supermercados, para fazer estoque de gêneros essenciais. Ainda assim, foi preciso enfrentar as resistências às mudanças por parte da oposição e até mesmo de aliados do governo.

A redução da inflação a níveis civilizados assegurou uma melhoria geral nos ganhos, permitindo aos consumidores programar melhor o seu futuro, com a volta do crédito de longo prazo, agora sem a ameaça de sobressaltos financeiros. Ainda assim, a inflação em torno de 6% ao ano continua elevada demais para uma economia estabilizada e só não é maior porque algumas tarifas estão represadas. E a taxa de juros, mesmo tendo despencado depois de debelada a hiperinflação, encontra-se em patamares inaceitáveis.


Depois de transformar o Real numa conquista dos brasileiros, o país precisa  assegurar agora taxas menores de inflação e de juros, o que vai depender de mais reformas estruturais. As mudanças, que são pressuposto para o crescimento, só ocorrerão se os políticos se sentirem pressionados a aprová-las pela sociedade.

Zero Hora - Porto Alegre - 1/7/2014
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