quarta-feira, 16 de março de 2016

Nova afronta aos brasileiros


Confirmada a nomeação de Lula para não importa qual Ministério, Dilma Rousseff estará abrindo mão, de fato, de sua condição de chefe do governo, como preço a pagar pela possibilidade de prorrogação do prazo de sobrevivência do PT no poder. Ao mesmo tempo, ao transferir o comando do País a seu padrinho – que no domingo passado, na forma do Pixuleco, foi um dos principais alvos das clamorosas manifestações de protesto que tomaram conta do País –, Dilma desmascara o apreço que o lulopetismo alega ter pela “voz das ruas”. Fazer de Lula ministro de Estado, neste momento, é afrontar os brasileiros. Mais uma vez.

Afirmar que, uma vez ministro, Lula passará a governar de fato o País não é exagero retórico, como certamente alegarão os petistas, mas o desfecho natural da escalada por meio da qual Lula exigiu que Dilma, nos últimos meses, moldasse o Ministério segundo suas preferências e conveniências. Assim, ela se livrou de ministros com os quais mais se identificava, mas foram condenados pelo PT: Pepe Vargas, da Secretaria de Relações Institucionais; Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência; Joaquim Levy, da Fazenda; Aloizio Mercadante, da Casa Civil; e José Eduardo Cardozo, da Justiça. Finalmente, Lula e o PT se deram conta de que o problema não era a equipe, mas a própria Dilma. E, ao que tudo indica, o chefão do PT, docemente constrangido, acabará cedendo aos apelos da tigrada e assumirá o poder de fato como último recurso para salvar a si mesmo e a seu partido.

Estará sendo implantado no País, então, o tal semipresidencialismo que algumas sumidades lulopetistas passaram a defender nos últimos dias, numa versão que concentrará nas mãos de Lula o poder político e em particular o comando da política econômica, restando a Dilma Rousseff a pompa e circunstância necessárias para salvar as aparências. Poderá continuar pedalando todas as manhãs pelas vizinhanças do Palácio da Alvorada.

Não há o que lamentar sobre o futuro imediato que parece reservado a Dilma Rousseff. Ela já está e continuará pagando o preço de sua inacreditável incompetência política e gerencial, agravada pela teimosia, arrogância e prepotência que esconde sob o manto de uma falsa altivez.

Para Lula, tornar-se ministro é mais que voltar ao poder. É obter foro especial – no caso, a Suprema Corte – para os vários processos em que consta como investigado. E, se o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir adotar o mesmo procedimento do mensalão, o foro privilegiado estará estendido a todos os demais implicados nesses processos, inclusive o clã Da Silva. Não é desprezível o peso dessa implicação judicial na decisão de Lula de superar sua “hesitação” e “aceitar” um Ministério. Mas isso não significa que ele se livrará da cadeia. Que o digam os “guerreiros do povo brasileiro”, também conhecidos como mensaleiros.

É claro que uma vez ministro Lula colocará todo o peso de sua influência política na tarefa de impedir o impeachment de Dilma. E terá à sua disposição todo o aparelho estatal, que usará com a desfaçatez que demonstrou cabalmente nos anos em que exerceu a Presidência.

Mas isso não é tudo – o que significa que pode vir coisa mais cabeluda por aí. Foram apresentadas a Dilma como conditio sine qua non para a “aceitação” do cargo de ministro por Lula medidas que levarão a economia nacional para o subsolo da cova funda em que já nos meteram. Entende Lula, com o apoio do PT e das entidades que o partido controla, que é indispensável agir rápida e vigorosamente em duas frentes: acabar com essa história de ajuste fiscal e promover a abertura de farto crédito para a compra de bens de consumo e investimentos em infraestrutura. Dinheiro para tudo isso? Dá-se um jeito, nem que seja metendo a mão nas reservas internacionais.


Se tudo isso de fato acontecer, o Destino, além de deixar órfãos os brasileiros, comprovará que Lula é bom profeta. Pois foi ele quem disse, em 1998: “No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia; mas quando um rico rouba, vira ministro”.

O Estado de São Paulo, 16/3/2016

domingo, 13 de março de 2016

Chegou a hora de dizer: basta!


A maioria dos brasileiros, conforme atestam há tempos as pesquisas de opinião, exige que a petista Dilma Rousseff deixe a Presidência da República. A oportunidade de expressar concretamente essa demanda e, assim, impulsionar a máquina institucional responsável por destituí-la, conforme prevê a Constituição, será oferecida hoje, nas manifestações populares programadas Brasil afora. Chegou a hora de os brasileiros de bem, exaustos diante de uma presidente que não honra o cargo que ocupa e que hoje é o principal entrave para a recuperação nacional, dizerem em uma só voz, em alto e bom som: basta!

Que as famílias indignadas com a crise moral representada por esse desgoverno não se deixem intimidar pelo rosnar da matilha de petistas e agregados, cujo único interesse na manutenção de Dilma na Presidência é preservar a boquinha à qual se habituaram desde que o PT chegou ao poder.

Essa turma é hoje minoritária, quase marginal, totalmente destituída da força que um dia teve, quando seduzia a parte ingênua da opinião pública nacional com a promessa de um governo de vestais, empenhado apenas em promover a justiça social. Como essa farsa foi desmascarada pelos fatos – o Brasil se viu mergulhado em escândalos inéditos em sua história e o desastre do governo Dilma transformou o sonho do fim da pobreza no pesadelo da década perdida –, restou aos petistas insinuarem que os cidadãos comuns, aqueles que não se organizam em sindicatos ou “movimentos sociais” destinados, por incrível que pareça, a defender privilégios, correm algum risco se forem às ruas.

Já faz tempo que, ao farejar o fim dessa era de privilégios, a tigrada lançou no ar suas ameaças, com a pretensão de se impor pela força, já que pela razão não era mais possível. Em fevereiro de 2015, o chefão petista, Luiz Inácio Lula da Silva, se disse pronto para a “briga” e invocou o “exército do Stédile”, em referência ao raivoso líder do MST. Depois, em agosto, em pleno Palácio do Planalto, sob o olhar cúmplice de Dilma, o presidente da CUT, Vagner Freitas, pediu a seus colegas sindicalistas e assemelhados – essa turma de boas-vidas alimentados pelo trabalho alheio – que saíssem às ruas “entrincheirados, com armas na mão, se tentarem derrubar a presidente”. Agora, encurralado pela Justiça, Lula tornou a arrotar suas ameaças, que encontram eco nos ouvidos de um número cada vez mais reduzido de seguidores, desesperados para ter algo em que se agarrar diante do esboroamento do poder petista.

Já ficou claro, no entanto, que esse punhado de irresponsáveis nada pode contra a maioria dos brasileiros honestos. Suas bravatas destemperadas nada são diante da resolução do povo, agora mais do que nunca convencido de que o País não suporta mais tanta corrupção e tanta incompetência. Já em seu primeiro mandato Dilma havia revelado, para quem quisesse ver, toda a sua incapacidade de governar. Mesmo assim, graças a uma campanha eleitoral baseada no medo e em mentiras de todo tipo, Dilma conseguiu se reeleger – para levar o País a um dos mais calamitosos períodos recessivos de sua história e a uma aguda crise política e moral.

Sem nenhuma vocação nem para a política nem para a administração, Dilma não teve forças para resistir ao sequestro de seu governo por oportunistas de variados naipes. É a eles que o País está entregue hoje e é contra eles todos – Dilma, Lula e os demais condôminos desse indecente edifício construído à base de corrupção e de mentiras nos últimos 13 anos – que os brasileiros erguerão hoje sua voz nas ruas.


Tudo isso poderia ter sido evitado se Dilma tivesse tido a grandeza de renunciar ao cargo. Na undécima hora, ela enfim revelaria algum traço da estadista que Lula prometeu para o País. Esse gesto serviria para evitar o sempre traumático impeachment, agora praticamente inevitável, e aceleraria a urgentíssima transição para um governo munido da legitimidade indispensável para reunificar o País e conduzi-lo para longe da tormenta. Mas já ficou reiteradamente claro que Dilma, Lula e os petistas são incapazes de pensar senão em salvar seus mesquinhos interesses, além da própria pele. Diante disso, resta aos cidadãos brasileiros mostrarem seu poder, proclamando, inequivocamente, que não admitem mais que o lulopetismo, desonesto e incompetente, continue encastelado no governo.

O Estado de São Paulo, 13/3/2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Percalços de uma alma honesta


Se quem não deve não teme, Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar feliz com a oportunidade que lhe é oferecida pelo Ministério Público (MP) de São Paulo, que o denunciou à Justiça, de acabar de uma vez por todas com a perseguição de que alega ser vítima no caso do tríplex no Guarujá. Bastaria que sua equipe de advogados – privilégio reservado a uma pequena elite de brasileiros – livrasse o ex-presidente da acusação. Caberia aos advogados demolir, no mérito, as suspeitas e acusações, em vez de se dedicarem a manobras protelatórias relativas a preliminares processuais. Não lhes seria trabalhoso apresentar em juízo provas irrefutáveis de que Lula é “a alma mais honesta deste país”.

Nada disso foi feito e o resultado foi a apresentação de denúncia criminal contra Lula e, mais grave que isso, com pedido de prisão preventiva do ex-presidente. Lula temia os rigores da Lava Jato e acabou em maus lençóis por fatos mais corriqueiros, como falsidade ideológica, ficando ao lado de denunciados por estelionato – o célebre 171.

De qualquer modo, e como o seguro morreu de velho, quando a denúncia do MP foi protocolada na Justiça paulista, na quarta-feira, Lula estava em Brasília cumprindo uma intensa agenda de reuniões com políticos e altas autoridades, todos interessados em protegê-lo da “perseguição” que policiais, procuradores e juízes, “cooptados pela direita”, estão promovendo contra ele. Um cidadão prestativo e engenhoso chegou a sugerir que Lula seja nomeado ministro, o que lhe garantiria foro para escapar dos rigores da Justiça de Curitiba.

Essa ideia bizarra – há quem diga que foi de jerico – dá a medida da desorientação e do desespero dos petistas diante da crise política. Um dos maiores entusiastas dela é o ministro Ricardo Berzoini, da Articulação Política, que cederia o posto a Lula: “Quem é que não gostaria de ter um Pelé no time?”.

Ninguém parece estar se importando – provavelmente com exceção da própria Dilma – com a situação constrangedora em que estaria colocada a presidente da República ao assinar a nomeação de um ministro que, no interior da máquina governamental, teria mais autoridade do que ela própria – que, aliás, já não tem nenhuma. Mas talvez seja exatamente essa a mirabolante ideia dos jericos: colocar Lula no poder, com gabinete no Palácio do Planalto, enquanto a Dilma seria permitido fingir que continua governando. A ideia foi apresentada a Lula em jantar no Alvorada, na terça-feira, como parte de uma ação mais ampla de recomposição do primeiro escalão do governo. Segundo se apurou, o ex-presidente afirmou que “vai pensar” no assunto.

Como parte do esforço de mobilização política em sua defesa, Lula esteve também na residência oficial do presidente do Senado, Renan Calheiros, peemedebista que, segundo as mais recentes especulações, tende a se distanciar do Palácio do Planalto. Participaram do encontro vários senadores do PMDB, que foram contemplados por Lula com novas frases de efeito produzidas por seu delírio persecutório. Por exemplo: “Se quisesse, eu poderia incendiar o País. Mas esse não é o meu papel. Sou um homem da paz”.

Renan Calheiros ofereceu a Lula uma cópia da Constituição Federal – que certamente o homenageado nunca leu nem lerá –, num gesto que parecia destinado a sugerir que as investigações da Lava Jato têm atropelado os preceitos constitucionais. Mas há também quem tenha sugerido uma versão mais óbvia do gesto de Renan: chamar a atenção de Lula para o fato de que existe uma Constituição no Brasil.


É compreensível que o chefão do PT esteja aflito para envergar uma armadura política que o preserve de dissabores com a Justiça, mas a dura realidade que o confronta é a de que foram ele próprio e a tigrada que cevou que criaram as evidências contra as quais nenhum argumento se sustenta. O caso do tríplex é emblemático dessa situação. Para começar, Lula jamais deveria ter-se permitido, e à sua família, sequer chegar perto do condomínio Solaris, símbolo da gestão safada da direção de uma cooperativa de bancários que acabou lesando milhares de associados. O empreendimento foi salvo pela intervenção – sugerida sabe-se lá por quem – de uma construtora, a OAS, implicada na Lava Jato, que generosamente gastou R$ 777 mil na reforma de um tríplex no qual dona Marisa Letícia estava comprovadamente interessada. Isso se explica?

O Estado de São Paulo, 11/3/2016

terça-feira, 8 de março de 2016

A vassalagem de Dilma a Lula


Quando decidiu oferecer solidariedade a Luiz Inácio Lula da Silva, visitando o chefão petista com estardalhaço um dia depois que ele se viu como alvo central da Operação Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff amesquinhou vergonhosamente a Presidência da República, reduzindo-a a um mero puxadinho de um dos tantos imóveis de que o ex-presidente usufrui graças a favores de amigos do peito.

Fazendo uso pessoal e político-partidário do aparato presidencial, como o avião e o helicóptero oficiais, Dilma foi a São Bernardo para prestar vassalagem pública a Lula, num ato de sabujice que, além de ilegal, desonra o cargo que ela ocupa. De quebra, a presidente se prestou a engrossar o coro dos que enxergam na Justiça o centro de um “golpe” contra seu governo e contra Lula, configurando inaceitável desrespeito do Executivo pelo Judiciário.

Esse comportamento grotesco serve somente para confirmar aquilo que os brasileiros já sabem: Dilma não existe mais como presidente. Sua insistência em permanecer nesse cargo, para o qual nunca teve aptidão e já não tem legitimidade, apenas piora uma situação já de si muito grave. Para que não se atinja o temido ponto de ruptura, em que a violência toma o lugar do debate político, Dilma deveria ter a decência de renunciar, abrindo caminho para a necessária normalização das relações institucionais e para a retomada da confiança na capacidade do governo de governar.
No entanto, em diversas oportunidades, Dilma já avisou que jamais tomará a iniciativa de abreviar seu mandato. Ela costuma vincular essa disposição a seu passado de guerrilheira que suportou a tortura nos porões da ditadura – como se o impeachment, que está previsto na Constituição, ou os movimentos que democraticamente defendem sua renúncia fossem comparáveis aos absurdos do regime militar.

Mas foi a um absurdo que Dilma e os petistas reduziram o debate político atual. Para salvar o ex-presidente Lula da cadeia e Dilma do impeachment, o PT tenta transformar o País numa rinha de galos, isto é, pretende arrastar os indignados brasileiros de bem para o mesmo nível de truculência ao qual a tigrada está habituada. A confusão moral é o que aduba a erva daninha petista.

Enquanto isso, o País segue sem rumo, em profunda crise, graças a uma presidente que não governa mais – isso depois de ter condenado a economia a uma retração que só se costuma observar em tempos de guerra ou de grandes catástrofes. Restou a Dilma caçar “mosquitas”, entregar casas do Minha Casa, Minha Vida e defender Lula.

Ao usar o avião e o helicóptero presidenciais para fazer uma visita particular a seu padrinho e ao aparecer em público em clima de comício, com o braço erguido, ao lado de Lula, suspeito de chefiar uma grande quadrilha de corruptos que assaltaram o País, Dilma fez sua opção: decidiu ficar contra a maioria absoluta dos brasileiros, incompatibilizando-se de vez para o exercício da Presidência.

Do ponto de vista político, é sua última cartada. Mesmo depois que Lula e seus apaniguados se posicionaram publicamente contra o governo de Dilma, considerado por muitos petistas como “neoliberal”, a presidente concluiu que ela não é nada sem seu chefe. Conforme esse cálculo, sua sobrevivência no cargo depende do apoio de Lula e do partido que lhe virou as costas, mesmo que isso signifique total subserviência ao PT – cujos líderes, se não estão presos, enfrentam hostilidade em locais públicos – e, principalmente, a seu líder, em cujos calcanhares está a Justiça. Não é uma boa perspectiva.

Do ponto de vista legal e moral, o caminho trilhado por Dilma não tem volta. A presidente faz prevalecer seu interesse pessoal em detrimento do interesse público. Deixou de ser a governante de todos os brasileiros para servir a Lula. Misturou-se à tigrada que hoje pretende intimidar aqueles que estão empenhados no cumprimento da lei.


Assim, cresce a percepção, inclusive no Congresso, de que Dilma está no cargo apenas para salvar Lula, e nada mais. O País e suas instituições não podem se curvar a isso.

O Estado de São Paulo, 8/3/2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

Procura-se um presidente


A petista Dilma Rousseff ocupa apenas formalmente o cargo de presidente da República, para o qual foi reeleita em 2014. Na prática, ela já não consegue exercer nenhum poder, salvo o previsto no protocolo – sempre haverá alguém no Palácio do Planalto para lhe servir um cafezinho. Mas a autoridade para governar de fato, conferida pelo voto popular, a presidente não tem mais, nem mesmo diante daqueles que, em tese, deveriam apoiá-la, quer porque integram seu partido, quer porque formam o condomínio que a sustenta. Formou-se um vácuo no Executivo, a tal ponto que, hoje, se pode dizer que falta um presidente no governo que aí está. Como política é ocupação de espaços, esse vazio institucional deixado pela incapacidade de Dilma já está sendo preenchido pelo Congresso, que assume cada vez mais ares de governo, como se no parlamentarismo estivéssemos.

Vendo o Planalto desnorteado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), planejam impor uma extensa pauta de votações com temas que não são considerados prioritários pelo governo e que contrariam tanto Dilma como o PT.

Entre os projetos que deverão ser levados a plenário no Senado estão a proposta de autonomia do Banco Central, a proibição de mudanças em contratos de concessão, a reforma tributária e a fixação de teto para o endividamento da União, além da reforma da Previdência, que Dilma até quer, mas o PT repudia.

Na Câmara, Eduardo Cunha planeja criar comissões para discutir assuntos que são de interesse direto do governo, como o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal. “A resultante da comissão especial é que será levada ao plenário”, informou Cunha. Ou seja, o governo perdeu totalmente a influência sobre a agenda legislativa mesmo em assuntos que considera de importância estratégica.

Já as propostas da lavra do governo são tratadas com incontido desdém. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), por exemplo, classificou de “doidice” a intenção do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de criar uma “banda fiscal” para o superávit primário, que automaticamente afrouxaria a meta fiscal em caso de desaceleração da economia. “Precisamos ter realismo fiscal”, ponderou o parlamentar, como se o Congresso fosse um exemplo de dedicação ao equilíbrio das contas públicas.

Portanto, sem força para retomar a iniciativa característica da Presidência, Dilma depende da boa vontade de grupos políticos sobre os quais não exerce nenhuma influência, apesar de ainda deter a poderosa caneta que distribui cargos e verbas. Nem mesmo o modelo de “presidencialismo de cooptação”, resultante da transformação do “presidencialismo de coalizão” em um grosseiro toma lá da cá, tem funcionado. Dilma só conseguiu arregimentar algum apoio na segunda divisão do PMDB, e mesmo assim ao custo de entregar anéis e dedos – como o importantíssimo Ministério da Saúde – a políticos de baixa extração.

Todo esse esforço tem sido incapaz de restituir a Dilma o poder inerente a seu cargo. Sua cruzada em favor da volta da CPMF, hoje praticamente a única pauta que ocupa a agenda presidencial, não encontra respaldo sério em nenhum recanto no Congresso. Ao contrário: sempre que podem, os críticos do governo lembram que, antes de defender a CPMF, Dilma deveria convencer seu próprio partido a aprovar as reformas essenciais para a retomada da economia.

Mas é justamente aí que está o maior problema de Dilma: a petista não governa porque é bisonhamente fraca – e não se fortalece porque, além de ser como é, enfrenta a sabotagem de seus correligionários, a começar pelo chefão do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A título de “ajudar” Dilma a governar, como disse em discurso à militância petista, Lula tratou de desmoralizar de vez a presidente, ao derrubar seus principais ministros – o da Casa Civil, o da Fazenda e, agora, o da Justiça.


Assim, está claro que, politicamente, Dilma já é passado. Enquanto ela estiver na Presidência, esta será exercida na prática por terceiros – Renan, Cunha, Wagner, Lula et caterva –, com claros prejuízos para o equilíbrio institucional e o futuro imediato do País.

O Estado de São Paulo, 7/3/2016

sábado, 5 de março de 2016

Os males que Lula faz

Lula dando uma "bronca" na sua empregada, a presidente da república bananeira
A condução coercitiva do ex-presidente Lula, para depor sobre sua participação no petrolão, é a prova definitiva de que o edifício institucional e democrático do Brasil resistirá a essa gigantesca onda de fisiologismo, corrupção e imoralidade que tomou o Congresso, o Executivo e parte substancial do empresariado desde que o PT chegou ao poder. As autoridades do Judiciário não se deixaram intimidar pela salivação da matilha lulopetista, que passou os últimos meses a desafiar o juiz Sérgio Moro, a Polícia Federal e os procuradores da Lava Jato a cometerem a ousadia de tocar em seu dono, elevado à categoria de santo.

As evidências contra Lula são tantas e suas explicações, tão ofensivas à inteligência alheia, que os agentes da lei estariam prevaricando se não tivessem tomado nenhuma providência contra o chefão petista. Pode-se dizer até que demorou demais, pois já está claro, desde os tempos do mensalão, que Lula não apenas sempre soube da corrupção que devastou a administração pública sob os governos do PT, como a corrupção em si mesma acabou por se tornar um método, cujo mentor não pode ser outro senão o ex-líder sindical que ascendeu usando a máscara de herói da ética na política.

Ontem, finalmente, essa máscara lhe foi arrancada. Conduzido a depor sob escolta policial, Lula teve de prestar contas de seu enriquecimento em meio a suspeitas cada vez mais fortes de que se aproveitou pessoalmente do esquema que assaltou a Petrobrás. Durante quase quatro horas, ele teve de responder a questões envolvendo os favores que recebeu de seus grandes amigos empreiteiros, todos mergulhados até o pescoço na Lava Jato.

Qualquer cidadão sobre quem pairassem suspeitas desse tipo teria sido igualmente obrigado a dar esclarecimentos à polícia. Assim funciona o Estado de Direito, no qual ninguém está acima da lei. Mas Lula, para o PT, não é “qualquer cidadão”. É o “maior líder popular da história do Brasil”, como seus cupinchas dizem e repetem há anos, desses que, vez ou outra, podem transgredir a lei. Ora, é a lei que nos torna iguais. Mas, para os petistas, Lula se tornou “preso político”, e forçá-lo a depor caracteriza um “golpe”, contra o qual só é possível responder por meio da truculência. “Agora, é rua e guerra”, anunciou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) – aquele que não gosta que se fale de transporte de valores em sua presença. Foi esse o tom adotado pelo PT.

Lula reiterou, de maneira irresponsável e truculenta, o seu desrespeito habitual à democracia e às instituições, às quais praticamente declarou guerra, convocando a militância lulopetista para defendê-lo nas ruas. Mas o seu julgamento pelas ruas virá depois. Primeiro, terá de se haver com as leis do País e com quem as faz valer. E aí a conversa não admite valentia de botequim.

Diante do chamamento à desordem e à indisciplina cívica feito por Lula, das autoridades judiciais e dos líderes políticos exige-se energia, mas também serenidade e responsabilidade para isolar aqueles que não têm nenhum compromisso com o diálogo e com o respeito às instituições. É a estabilidade do Brasil que está em jogo.

Essa grave crise, na qual as fantasias criadas em torno do grande projeto revolucionário petista e de seu líder messiânico se desfazem de forma dramática, leva à reflexão de como o País chegou a esse ponto. Deve-se perguntar como o Brasil se deixou seduzir por esses prestidigitadores que, em quatro eleições presidenciais desde 2002, convenceram os eleitores de que bastava o desejo de Lula para que se fizesse a justiça social e o País se transformasse, por milagre, num paraíso de riqueza e felicidade.
Lula et caterva chegaram ao poder porque alguém os colocou lá. O monumental desastre do lulopetismo é um pesadelo que o Brasil escolheu ter, nas urnas, mesmo diante das evidências de corrupção e de incompetência.


Na hora de decidir os rumos da política, os brasileiros precisam considerar que impulsos e entusiasmos momentâneos frequentemente se transformam em ônus insuportáveis, pouco tempo depois. Cada escolha deve ser, portanto, medida e pesada responsavelmente. Do contrário, o País estará condenado à ruína crônica e à irrelevância, como uma república bananeira que, embora riquíssima, definha e se deixa devorar pelos corruptos e pelos ineptos. Lula é o exemplo vivo – muito vivo – dos males que podem advir a uma Nação despreocupada.

O Estado de São Paulo, 5/3/2016

terça-feira, 1 de março de 2016

A morte de ‘Lula paz e amor’


Aos berros, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva anunciou a seus simpatizantes, por ocasião do 36.º aniversário do PT, que “o ‘Lula paz e amor’ vai deixar de ser ‘paz e amor’ e vai ser outra coisa daqui para frente”. Foi o modo que o chefão petista encontrou para declarar guerra a todos os que, de uma forma ou de outra, colaboram para desmascarar suas imposturas e para obrigá-lo a prestar esclarecimentos à Justiça sobre as muitas suspeitas que pairam sobre sua conduta.

Lula pretendia assim dar uma demonstração de força, na presunção de que o chamamento à militância petista fosse suficiente para intimidar os jornalistas, promotores e policiais que investigam suas estranhas relações com empreiteiros graúdos. Mas o pífio resultado desse esforço, diante de uma desanimada militância, mostra que Lula e seu partido são hoje apenas lembranças esfarrapadas do que um dia já foram, lá se vão três décadas.

Ao decretar o falecimento de “Lulinha paz e amor”, personagem criado para que ele vencesse a eleição de 2002, Lula abandona de vez a pretensão de ser a ponte entre o capital e o trabalho. Funcionou para elegê-lo naquela ocasião, mas só enganou os incautos. Ficou claro que a única aliança com o capital que o ex-sindicalista pretendia costurar dizia respeito à formação de um clube de empresas que, em troca de vantagens, ajudava a sustentar o projeto de poder petista. Isso tudo funcionou bem até que apareceu a Lava Jato – e o resto dessa tenebrosa história ainda está por ser conhecido.

Enquanto a Lava Jato atingiu apenas os empresários desse clube e um punhado de políticos governistas, Lula guardou silêncio trapista. Como já demonstrou fartamente ao longo de sua trajetória, o petista sabe se preservar nos momentos de crise, entre outras razões porque não hesita em atirar amigos aos leões, se isso for necessário para salvar a própria pele.

Agora, no entanto, a Justiça chega a seus calcanhares, pois surgiram evidências de que o petista pode ter se beneficiado de suas relações com os empreiteiros que tanto lhe devem. E então Lula trocou de figurino e pintou-se para uma guerra que só existe em seu discurso. Afinal, se ele é honestíssimo, como diz, então não tem o que temer.

Mas Lula não pretende esclarecer nada em juízo. Enquanto planeja usar todas as chicanas possíveis para adiar o momento em que terá de deixar sua versão gravada nos autos do inquérito, Lula pretende explorar politicamente o momento para posar de vítima “das elites” e eletrizar a militância, amuada com os seguidos escândalos em que petistas de alto coturno se meteram nos últimos dez anos e com o definhamento do partido.

O momento é crítico para o PT. Uma pesquisa do Ibope mostrou que a taxa dos eleitores que se declaram petistas caiu para 12%, o mesmo porcentual de junho de 1988 e em empate técnico com os eleitores que se dizem peemedebistas. Considerando-se que os petistas eram 36% em abril de 2013, o nervosismo de Lula é compreensível, ainda mais porque o próprio chefão petista vai mal nas pesquisas – a rejeição ao ex-presidente atingiu 61%, segundo o Ibope.

É evidente que não se pode subestimar a capacidade de Lula e do PT de se recuperarem, como fizeram em meio ao mensalão. O fato, porém, é que os próprios petistas hoje estão desacorçoados. O aniversário do PT, programado para servir como exibição de vitalidade, foi um fiasco. Esperavam-se 4 mil pessoas, mas menos de 1,5 mil compareceu à festa, que tinha o astro Lula como sua atração principal, além de um show de samba.


É lícito imaginar que muitos petistas tenham desistido de comparecer porque temiam sentir vergonha alheia ao ouvir Lula dizer, por exemplo, que o tal sítio de Atibaia – aquele do qual o chefão usufruiu desde que deixou a Presidência e que recebeu benfeitorias bancadas por empreiteiras – lhe foi oferecido numa singela “surpresa” por seu amigo Jacó Bittar. Caradurismo assim deve ser inaceitável até para petistas empedernidos, mas Lula, já se sabe, não tem limites. À plateia, revelou qual é a qualidade que o diferencia dos que o atacam: “Vergonha na cara! É isso o que eu tenho que eles não têm!”.
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