sexta-feira, 13 de março de 2015

Domingo é dia


Se em três meses de governo Dilma já enfrenta uma crise de credibilidade, com vaias e panelaços, o que imaginar para quatro anos de governo? Em outras palavras: é possível perguntar pela saída num túnel tão longo e agitado?

Se fosse cirurgião político e a crise fosse um corpo humano, minha proposta seria desconectar alguns nervos que entrelaçam economia e política. Isso é quase impossível. Mas não deixa de ser a tarefa correta. Se a crise política continuar interferindo na frágil situação econômica, será mais longo o caminho da retomada, todos sofreremos mais.

O cenário ideal seria aquele em que o Congresso Nacional discutisse as medidas econômicas de manhã e, ao longo do dia e da noite, quebrasse o pau em torno da política, sobretudo da corrupção. Esse idealismo esbarra em obstáculos intransponíveis, como a divergência entre quem manda no Congresso e quem manda no governo.

Na discussão econômica, não seriam escamoteadas as questões políticas. Estamos cortando os gastos de forma adequada? Quais são as correções necessárias no movimento da tesoura?

Quem apenas torce pela recuperação econômica tem medo de que as teses do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sejam contestadas e prefere não apontar correções. Mas elas podem enriquecer o estreito caminho.

Os cortes terão de ser feitos por um governo de esquerda, é o que temos no momento. Na Grécia, a esquerda chegou ao poder com um projeto de rever o plano de austeridade. Aqui, ela ainda precisa reverter a gastança. É uma etapa anterior, para a qual está pouco preparada.

Mesmo se conseguirmos isolar, parcialmente, a economia, é impossível acreditar que Dilma iria muito longe. O desgaste cotidiano, acabará reduzindo seu horizonte.

A conjugação das crises política, econômica e social é uma das mais sérias que conheci nos últimos anos. Dilma acha que não, que estamos exagerando.

Ela afirma que o aumento no preço da energia se deve à seca e omite seus equívocos. Ela diz que a Petrobrás foi assaltada, mas não consegue vislumbrar, pelo menos no seu discurso, como se produziu esse assalto.

Dilma não reconhece as mentiras da campanha. E acredita que as pessoas vão esquecer-se delas com um pouco de manipulação marqueteira.

O PT não reconhece o direito legítimo de protestar contra o governo. Prefere atacar os que protestam: são ricos, são da classe média, burgueses manipulados pela imprensa golpista.

A tática da negação e do confronto alimenta os protestos. É possível que alguém deles saiba disso. Saber alguma coisa dentro do PT é extremamente perigoso. Seguir a cartilha é mais seguro.

Nesse quadro, não vejo outro caminho a não ser uma crise prolongada. Sem capacidade de autocrítica e conciliação, Dilma marcha para uma rejeição mais ampla nas pesquisas.

A manifestação de domingo, com o tema "Fora Dilma", é uma tentativa de desatar um dos grandes nós da crise: a incapacidade da presidente mais despreparada do período democrático para liderar o processo mais difícil que o Brasil enfrentou nesses 30 anos.

Os teóricos do PT afirmam que a saída de Dilma é um golpe, pois foi eleita para governar até 2018. Nem toda saída é um golpe. Collor, com a ajuda do próprio PT, sofreu impeachment. No período anterior à democratização, Jânio simplesmente renunciou.

Os tucanos rejeitam a tese do impeachment. Não gostam de conflito. Nem os previstos na lei. Argumentam que a sustentação política do governo sofreu um colapso. E mencionam vagamente uma abertura para a sociedade.

Impeachment e renúncia são diferentes de golpe. Intelectuais ligados ao governo têm falado de um ódio contra o PT. De fato, os ânimos se exaltaram. Fala-se de um ódio contra o PT, como se o partido fosse de anjos imaculados. Ninguém analisa o comportamento dos seus quadros no governo ou tenta entender as causas da rejeição.

Segundo alguns deles, o ódio dos ricos existe porque os pobres consomem mais, vão às universidades e viajam de avião. Em outras palavras, a razão do ódio é a nossa virtude solidária.

O máximo que conseguem é isto: circunscrever o processo à oposição ricos e pobres. Se os ricos estão protestando, os pobres deveriam celebrar.

As lentes da ideologia queimam muitos neurônios. Eles supõem que os pobres são ressentidos e darão razão a qualquer governo ao qual os ricos se oponham.

São incapazes de reconhecer a importância do ajuste econômico e apresentar, dentro dele, um viés que realmente atenue o impacto negativo nos setores menos favorecidos. Um programa de cortes teria mais credibilidade se envolvesse alguns gastos do governo, passando pela publicidade, pelas viagens irracionais, pela demissão em massa dos companheiros agregados à máquina do Estado.

Dilma não tem condições de enfrentar a crise. Os intelectuais perderam-se na defesa do governo, foram atropelados, como tantos na História, pelo fascínio da chapa branca.

Não há dentro do PT a energia suficiente para pensar uma saída. Apenas reflexos defensivos, baseados nos instintos mais básicos da esquerda autoritária. Essa estrutura mental, que projeta nos outros a causa do próprio fracasso, é um dos pontos que me deixam pessimista em torno de um diálogo quando a crise for sentida como insuportável.

O PT acredita que está sofrendo uma conspiração dos ricos e da classe média. Mas poucos movimentos na História fizeram tantos líderes ricos e elevaram tantos militantes à classe média.
O problema do momento não é o choque de ricos contra pobres. Gostaria de ver seu espanto quando descobrirem isso. Ou, pelo menos, constatarem que existem milhões de ricos no Brasil.

Domingo ainda não vai revelar tudo. Mas será uma espécie de passagem de ano, um réveillon político de 2015.


Fernando Gabeira, O Estado de São Paulo, 13/3/2015

Na casa de Simonsen, oráculos prevêem suor e lágrimas

Mário Henrique Simonsen
O auditório no décimo segundo andar daquele templo septuagenário da economia chamado Fundação Getúlio Vargas estava mais lotado do que posse de ministro.

Lá dentro, mais de uma centena de convidados – alunos, professores e gente do mercado financeiro – queriam alguma luz sobre os destinos do PIB, da moeda, e, de alguma forma, de suas próprias vidas.Mario-Henrique-Simonsen

A placa na porta explicava o furor daqueles nerds: “Seminário de Política Monetária”. O evento era uma oportunidade única para se ouvir uma penca de ex-diretores do BC num momento ‘nunca antes tão confuso’ da vida do País.

Se havia alguma chance de entender a verdadeira ‘trollagem’ em que transformou a economia, essa chance estava ali. Estávamos, afinal, na casa de Mário Henrique Simonsen, talvez o maior economista brasileiro e o autor da frase, “A inflação aleija, mas o câmbio mata.” Simonsen não viveu para ver o Brasil em que sua frase voltou a ser atual, mas os economistas nos dois painéis do dia descreveram-no em detalhes horripilantes.

E o pior: “o grau de dispersão das opiniões” (em economês, a diversidade de opiniões) era da espessura de um fio de cabelo. O consenso é de que o dólar vai continuar subindo, e os juros também.

O primeiro a falar foi José Júlio Senna, um ex-diretor do Banco Central e autor de vários livros, um deles chamado “Tempos de Incerteza: A Economia Brasileira nos anos 80” — dado o título e o momento atual, deve ser candidato óbvio a uma edição atualizada e comparativa.  Essencialmente, Senna disse que as coisas no Brasil tem que ficar mais caras para que aumente o excedente a ser exportado e o País, assim, consiga fechar o buraco na sua balança de pagamentos. “Uma depreciação cambial adicional parece indispensável,” alertou.

Outro sinal de que eu devia sair logo dali e procurar a casa de câmbio mais próxima veio com a exposição de Eduardo Loyo, economista-chefe do BTG Pactual. Loyo notou que várias moedas estão se desvalorizando em relação ao dólar, e que, por isso, “para que o Brasil obtenha um dado ganho de competitividade, a desvalorização do real em relação ao dólar terá que ser maior do que precisaria ser se essas outras moedas estivessem estáveis frente ao dólar.”

Mas Senna e Loyo ofereceram apenas o aperitivo; o prato principal foi servido por Affonso Celso Pastore, um economista de cabelo prateado e pinta de chef gourmet que comandou o Banco Central entre 1983 e 1985 — aliás, uma época em que, como agora, a moeda nacional apanhou do dólar forte.

Pastore disse que essa alta do dólar está só no começo. “O que aconteceu até agora é pequeno perto do que aconteceu em ciclos de valorização anteriores,” disse ele, antes de explicar o que considera a principal variável para a desvalorização do real. “Você não tem que olhar quanto a [Janet] Yellen [presidente do Fed] vai subir o juro nos EUA. Você tem que olhar o crescimento relativo dos EUA versus o resto mundo — é isso que vai determinar a desvalorização aqui.”

Para ele, o fato dos EUA estarem crescendo bem mais que Europa e Japão é o que leva o fluxo de capitais para lá, e não a alta do juro.

Apontou para os jovens à sua frente e fuzilou: “Essa geração que está sentada aqui não tem memória de ciclos de fortalecimento do dólar na magnitude que estamos vendo hoje… Essa geração que está sentada aqui não tem memória de desequilíbrios estruturais como os que estamos enfrentando hoje.”

Ao ouvir a palavra ‘desequilíbrios’, um economista, digamos, mais próximo de Keynes do que de Friedman me cochichou: “Só tem uma forma de resolver isso: vender ativos.” (Até tu, Brutus?) “Isso atrairia capital, melhoraria o balanço de pagamentos e ainda aumentaria o caixa do Tesouro.”

Na plateia, alguns alunos da graduação mordiam a ponta dos lápis, aparentemente indecisos entre a satisfação de estar ali ouvindo os oráculos e a angústia com a mensagem que eles traziam.

Os ex-BCs foram consensuais em que a desvalorização cambial vai alimentar a inflação. Como resultado, o chamado ‘salário real’ (o que você ganha, menos o que a inflação te rouba) vai cair. E, lembrou o economista a meu lado, essa queda acentuada do poder de compra será a primeira a atingir o brasileiro depois que ele passou a ter acesso a crédito. Ou seja, vai pegar muita gente endividada.

No intervalo, um senhor de rosto vincado e barba branca me abordou e puxou assunto. Sem que eu nada perguntasse, pontificou: “Hoje existe a internet! Só não acabam com a inflação porque não querem! Se pegar três PhDs desses aqui [e apontou para um grupo de alunos], acabam com a inflação em uma semana.” Sorri obsequioso, e afastei-me por cautela.

Afora o futuro fulgurante do dólar, sobraram queixas sobre a “desconstrução institucional” de que a política econômica foi vítima. Mário Mesquita, que deixou o BC em 2010, lembrou sua experiência prestando contas ao Congresso: “Na época, a reação do Senado a uma inflação de 3% foi muito mais adversa do que a reação à inflação de 6%, e isso diz muito sobre o País em que vivemos.”  (Não diz não, Mário — grita.)

Afonso Bevilaqua, que chefiava a política econômica do BC no Governo Lula 1, reclamou dos “experimentos de política fiscal” que engordaram a dívida durante o Dilma 1, do Congresso ter relaxado a Lei de Responsabilidade Fiscal, e da volta de relações incestuosas entre os bancos públicos e as estatais.

O clima do evento evocava uma piada recente que corre no mercado. “Qual é a diferença entre o cenário otimista e o pessimista no Brasil hoje? No otimista, ‘C’est la vie’; no pessimista, ‘sem Levy’.”

Tem horas que só o humor salva.


Geraldo Samor

quinta-feira, 12 de março de 2015

Caminhando (ou ...) e cantando (ou ...)


O vice-governador da Bahia usou outros gerúndios, mas Rui Costa avisa: ‘Não tenho motivo para afastá-lo’

Na sexta-feira, quando o repórter Lucas Reis telefonou para o vice-governador da Bahia, João Leão, do PP, pedindo-lhe um comentário a respeito de sua inclusão na lista de políticos arrolados pela Procuradoria-Geral da República, ouviu o seguinte:

“Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos.”

João Leão acumula o cargo de vice-governador do estado com a Secretaria do Planejamento, para a qual foi nomeado pelo governador petista Rui Costa. Feito o estrago, dois dias depois Leão desculpou-se de forma tortuosa, explicando “a exata dimensão das minhas palavras”:

“Foram considerações feitas num momento de profunda indignação e surpresa. (...) Não há, da minha parte, nenhuma intenção de ofender o Ministério Público, o Poder Judiciário, ou quaisquer outras instituições essenciais na manutenção do Estado Democrático de Direito, nem pessoas.”

Se o doutor tivesse explodido ao sair de um bar ou mesmo de uma missa, tudo bem. Sua declaração foi dada numa resposta à indagação do repórter. Pode ter sido influenciada pela contrariedade, mas a “exata dimensão das minhas palavras” é só uma.

Faz tempo, as pessoas iam para a rua com os versos de Geraldo Vandré:

“Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não”

O doutor Leão ofereceu dois novos gerúndios para a velha letra, mas desta vez os “iguais” são outros. Foi a percepção da diferença que provocou os protestos de domingo, enquanto a doutora Dilma falava.

Passados alguns dias do episódio, sem que se possa atribuir qualquer conteúdo emocional ao que disse, o governador Rui Costa justificou as palavras de Leão: “No momento de dor e revolta você pode acabar pronunciando palavras que não sejam as mais adequadas”. Antes fosse. Nesse caso, seria compreensível que chamasse de “cornos” sabe-se lá quem. (Corno só não era ofensa para Andrew Parker Bowles, o marido de Camilla, namorada do príncipe Charles, atual duquesa da Cornualha.) A essência dos gerúndios seria então “estou pouco ligando”. Sairia a vulgaridade e permaneceria a soberba. Se um cidadão disser isso a um delegado em Salvador, toma uma cana por desacato a autoridade.

O comissário Rui Costa não tem poderes para demitir o vice-governador eleito em sua chapa. Contudo, o doutor Leão é seu secretário de Planejamento e ele informa: “Não vejo motivo nenhum para afastá-lo. Ele foi citado por alguns dos delatores. O que o STF fez foi autorizar o início do processo de investigação”. Não é bem assim. A simples abertura da investigação poderia, a juízo do governador, ser motivo insuficiente para afastá-lo. Tomado ao pé da letra, Leão informou que estava “cagando e andando” para o procedimento que um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou que fosse instaurado em relação a ele.

A linda canção de Vandré, com os gerúndios originais, era um hino para a rua e por isso foi proibida. Com os gerúndios de Leão, ela se torna um hino para o andar de cima:

“Seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não.”


Elio Gaspari, O Globo, 12/3/2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

Branco, rico e golpista

Lula, o grande líder dos pobres, demonstrando como é dura a vida
dos trabalhadores brasileiros.
Rico não pode se manifestar. A não ser por escrito. Ou dentro de casa. Ou em pequenas reuniões com amigos. Sem fazer alarde.

Caso resolva aderir a uma manifestação de massa, saiba que a desqualificará. Seu lugar não é na rua protestando.

Se for visto na rua protestando poderá ser acusado pelo PT de ser golpista. Certamente o será.

Não há nenhum dispositivo na Constituição que proíba o rico de pensar e de dizer o que pensa, mas ele que suporte as consequências.

Da mesma forma o branco. Pior ainda se ele for branco e rico.

É fato que a elite branca e rica lucrou uma enormidade com os governos de Lula e de Dilma. E que os mais ricos e brancos da elite pressionaram Lula para que ele voltasse a ser candidato no ano passado.

Não importa. A eles deve apenas ser assegurado o direito de apoiar o PT. De preferência sem condições. E de financiar o PT tirando dinheiro do seu próprio bolso ou desviando recursos públicos.

Quantos negros e pobres você vê no comando das maiores empreiteiras envolvidas com a corrupção na Petrobras?

Só vê ricos e brancos. E todos parceiros do PT. Deram mais dinheiro para o PT ganhar as eleições do ano passado do que para outros partidos.

Bem, se além de rico e de branco o cidadão morar em São Paulo, aí qualquer margem de tolerância com ele deve ser abolida.

Dilma e o PT perderam feio em São Paulo. O candidato de Lula ao governo colheu ali uma votação humilhante.

O que venha de lá, portanto, não deve ser levado em consideração. Antigamente foi a saúva. Agora, o paulista rico e branco é a praga que mais infelicita o Brasil.

Quem sabe o Congresso não aprova alguma lei que desconsidere o voto de São Paulo na hora de se contar os votos para presidente da República?

O radicalismo da proposta talvez possa ser suavizado com a restrição ao voto apenas nos bairros povoados por uma maioria branca, rica e golpista.

Burgueses!

Há quanto tempo eu não enchia a boca para chamar de “burgueses” os adversários das mudanças sociais, que só fazem enriquecer à custa dos miseráveis.

É verdade que a maior parte dos miseráveis ascendeu socialmente e compra o que os brancos e ricos lhe oferecem. E que quanto mais ascenderem e comprarem, mais os brancos e ricos se tornarão mais ricos.

Mas esse é um dilema que a esquerda corporativa, ávida por emprego público e órfã de ideologia, não sabe ainda como resolver.


Ricardo Noblat, 11/03/2015

Tudo bloqueado


Um amigo no exterior me perguntou se no Brasil estava tudo dominado. Referia-se ao habeas corpus dado por Teori Zavascki a Renato Duque, indicado do PT na Petrobras. Dominado não sei, respondi. Mas, naquele momento, estava tudo bloqueado: as estradas, pelos caminhoneiros, as contas bancárias, pela Justiça. Tantos bloqueios que a conta do ex-governador petista de Brasília, Agnelo Queiroz, foram bloqueadas duas vezes na mesma semana. Há bloqueio na relação Dilma- Congresso, e bloquearam o juiz que bloqueou os bens de Eike Batista.

O bloqueio se estendeu às cabeças: Washington Quaquá, um dirigente do PT fluminense, afirmou que daria porradas nos burgueses. Lula disse que chamaria o exército dos sem-terra para as ruas.

Às vezes temo que minha visão também fique bloqueada. Mas encaro esse movimento como a busca do golpe perfeito. O governo do PT arruinou a Petrobras, quer que os empreiteiros fiquem presos e que os sem-terra levem e deem porrada para defendê-lo. Em ruas indignadas com a corrupção, será difícil evitar os conflitos.

Bloqueados os caminhos para entender o assalto à casa do procurador Janot nas vésperas de apresentar a denúncia. Ele se limitou a dizer que os assaltantes estiveram por oito minutos em sua casa. Nada levaram de valor, apenas o controle remoto do portão. Se um grupo entra na casa de um procurador e não rouba nada, está apenas querendo dizer que entra quando quiser. E se leva o controle remoto do portão é apenas para mostrar como é inútil, pois conseguiram entrar sem ele. Ou será que seriam tolos o suficiente para acreditar que o controle remoto continuaria a abrir o portão depois do assalto?

O bloqueio mental se estende a Dilma. Ela despachou o embaixador da Indonésia pela porta lateral, como se fosse o entregador de pizza. O homem estava vestido com roupas típicas de seu país e compareceu na data marcada para apresentar credenciais.

Ninguém do Itamaraty percebeu essa grosseria. Ninguém no Congresso foi à embaixada da Indonésia pedir desculpas. Apagão diplomático. A política foi conduzida, nesse caso, por reflexos de uma dona de casa estressada. E ainda temos um brasileiro no pelotão da morte na Indonésia, compras de avião da Embraer que podem ser suspensas.

O bloqueio maior é na convivência política. A filósofa Marilena Chaui disse uma vez que odiava a classe média. Quaquá vai dar porrada em burgueses. Onde vai encontrá-los? Nos restaurantes de luxo nas ilhas do litoral de Angra? Quem é classe média? Vão atacar as lojas de conveniência nas noites de sábado, as academias de pilates?

Tudo muito confuso. CGU e TCU, provavelmente mais alguma coisa terminada em u, preparam um acordo de leniência. Os empreiteiros pagam multa e voltam a realizar obras públicas.
Enquanto isso, o BNDES estuda um empréstimo de R$ 31 bilhões para as empreiteiras. Com essa grana, pagam a multa e ainda podem mandar um pouco para os partidos do governo. E essa grana vai para os marqueteiros, que inventarão outros heróis do povo brasileiro, corações valentes e outras babaquices eleitorais. É assim que a banda vai tocar? Desta vez não só há um grande volume de informações como também a reação externa.

Romper com a opinião pública interna e com financiadores internacionais não é uma boa tática. Sobretudo no momento em que vivemos uma crise em que a falência do modelo aparece a cada novo indicador econômico.

Avançamos, desde o fim da ditadura. Houve confrontos, como o dos petistas com Mário Covas, operações extremas, como a dos aloprados em 2006. Em vez de se abrir para reparar os graves erros na economia e na política, Lula convoca um exército, como se acabassem os argumentos e o confronto fosse a única saída para o impasse que o próprio PT criou.

Transformar adversários políticos em inimigos significa uma regressão. Nosso processo democrático já havia superado esse estágio. O insulto a pessoas em busca de ajuda médica, como foi o caso da mulher de Mantega, é injustificável. Mas partiu de pessoas sem responsabilidades com o processo político. Assumir um tom de guerra à frente de um partido, como fizeram Lula e Quaquá, parece-me um ato de desespero. É uma ilusão intimidar para se defender.

Domingo que vem é 15 de março. Manifestações de protesto estão marcadas. O PT marcou a sua para defender o governo e a Petrobras que ele mesmo arruinou. Mas vai fazê-lo dois dias antes. Melhor assim. Vamos deixar que tudo aconteça, sem ameaças, sem porradas. Que o país se expresse em paz e que seja honrado o legado coletivo desses anos de democratização.

Falaram tanto na campanha eleitoral: filmes, lendas, imagens de um Brasil paradisíaco que fabricaram. Agora é hora de ouvir um pouco o que pensam as pessoas. Guardem exército e porradas para o videogame. Desbloqueiem o caminho do país real.

Fernando Gabeira, O Globo, 10/3/2015

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dilma mente de forma inacreditável em pronunciamento e ofende a inteligência do espectador

 on 8 DE MARÇO DE 2015 

É um fato que moralmente o governo petista não tem mais nada a dizer. Melhor seria se Dilma ficasse calada. O único pronunciamento que o governo pode fazer no momento é “nada a declarar”. Mesmo assim, a presidente se aventurou em um pronunciamento bizarro.
Foram quase 20 minutos de nulidades, enrolações  e mentiras vergonhosas que vez por outra levavam o espectador ao clima da campanha eleitoral, repleta de falsidades e distorções em estilo Goebbels. Evidentemente, este é um pronunciamento com a marca João Santana. O detalhe é que ela não está em período eleitoral, mas durante um governo decadente e desmoralizado.
A lenga lenga chegou a incluir a declaração de que “os fundamentos” (seja lá que diabos ela queira dizer com isso) continuam sólidos, “muito diferente daquelas crises do passado que quebravam e paralisavam o país”.
Acho que teremos racionamento de óleo de peroba, pois foi exatamente o governo Dilma que em dezembro de 2014 teve que aprovar a vergonhosa Lei do Calote, para criar a peça bizarra de superávit negativo. Tudo para que ela não fosse punida por crime de responsabilidade, gastando muito mais do que podia. Ou seja, ela quebrou o país.
Segundo ela, tudo está sendo feito para “proteger as economias” do povo. Mas o detalhe é que o governo dela deliberadamente quebrou o país e está levando a uma inflação de quase 8% nos últimos 12 meses acumulados.
Sem se corar, acredite se quiser, ela disse: “estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929″.
Mentira. O dólar está alto por que o Brasil está quebrado, e os Estados Unidos estão indo muito bem, obrigado. Conforme o Globo, nos Estados Unidos o “desemprego em fevereiro caiu de 5,7% para 5,5% nos Estados Unidos, menor taxa desde 2008. Foram criados no mês quase 300 mil empregos”. Quer dizer: ela não pára de mentir. Parece doença.
Não existe isso de “crise mundial” que justifique tamanho afundamento de nossa economia. Na América Latina, só estamos melhor que Argentina e Venezuela. Mas isso não significa absolutamente nada em termos de mérito.
Outro momento tragicômico foi este: “Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos.”
Mas não foi essa coisa que atende por nome de Dilma que disse durante a campanha que o problema da seca era irrelevante, apenas para imputar a Geraldo Alckmin a crise da água em São Paulo? Eles vão mudando o discurso não pela observação da realidade, mas por conveniência.
Certo momento, ela disse: “Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar”. Se o povo começar a perceber a quantidade de mentiras só neste pronunciamento, ela nem viu ainda o que é irritação de verdade.
Aliás, se ela diz que a “situação é passageira”, ela está mentindo, pois os argentinos e venezuelanos estão sentindo os efeitos da política bolivariana de saqueamento estatal há anos. A coisa piora a cada dia. A única forma de melhorar é trocando o governo. Caso contrário, é assistir a desgraça.
Outra mentira: “enquanto nos outros países havia demissões em massa, nós aqui preservamos e aumentamos o emprego e o salário”. Só que a taxa de desemprego está aumentando, o salário está perdendo cada vez mais seu poder de compra (diante da inflação descontrolada) e, pior, os direitos trabalhistas foram afetados, ao contrário do que Dilma havia dito em campanha.
Daí ela tem que apelar ao raciocínio místico: “Se conseguimos essas vitórias antes, temos tudo para conseguir novas vitórias outra vez”. A diferença é que antes havia o boom das commodities. Isso acabou. Agora para arrumar o Brasil ela vai ter que começar a trabalhar. Coisa que ninguém no governo dela sabe sequer o que significa.
Vamos ao resumo da baixaria desta coisa:
Primeiro: o esforço fiscal não é um fim em si mesmo. É apenas a travessia para um tempo melhor, que vai chegar rápido e de forma ainda mais duradoura.
O golpe fiscal é uma forma de jogar para o povo as responsabilidades de Dilma e do PT. Não foi o povo que praticou crime de responsabilidade e causou o saqueamento do estado. Foi o PT.
Segundo: não vamos trair nossos compromissos com os trabalhadores e com a classe média, nem deixar que desapareçam suas conquistas e seus direitos.
Acho que Dilma não tem mais moral em falar em “compromissos com os trabalhadores” e sequer em “conquistas e direitos”, e até mesmo partidos de extrema esquerda, aliados do PT, já estão reclamando disso.
Terceiro: não estamos tomando estas medidas para voltarmos a ser iguais ao que já fomos. Mas, sim, para sermos muito melhores.
Calma lá. Que história é essa de “estamos tomando estas medidas”? Quem disse que o Congresso aprovou? Alias, depois do golpe jurídico livrando petistas da Lava Jato, não me parece que o governo deva contar com o ovo lá naquele lugar.
Quarto: durante o tempo que elas durarem, o país não vai parar. Ao contrário, vamos continuar trabalhando, produzindo, investindo e melhorando.
Nada disso, Dilma. E você que tem que começar a trabalhar. Começando por deixar de lado o golpe fiscal, e reduzindo os cargos comissionados (hoje em 30.000) a no máximo 3.000 cargos. Eliminar a Lei Rouanet também já seria de muito bom tom. Acabar com a Bolsa Empresário para os amigos do rei também. Cortar a publicidade institucional do governo, levando-a a zero. Reduzir o número de ministérios pela metade. Enfim, há muitos cortes a serem feitos antes de um golpe fiscal.
Está nas mãos do Congresso barrar este golpe que Dilma tentou, de forma patética, defender em rede racional…
Para concluir, mais uma mentira:
Vou sancionar, amanhã, a Lei do Feminicídio que transforma em crime hediondo, o assassinato de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero.
Ela só escondeu a informação de que não há dedo de Dilma nessa Lei do Feminicídio, que veio do Senado.
Será que foi de bom tom ela entrar em um pronunciamento mentindo como se estivesse em sua macabra campanha eleitoral, roubando méritos dos outros, escondendo informações, fantasiando a realidade da economia mundial e levando estelionato eleitoral às últimas consequências?
É claro que ela deu um tiro no próprio pé e ajudou a solidificar ainda mais a hipótese de impeachment.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dilma encabeça a lista de Janot


O Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, deixou a presidente Dilma Rousseff de fora da lista de políticos supostamente envolvidos com a roubalheira da Petrobras. Melhor para ela – e talvez para o país. A conferir mais tarde. Mas embora fora da lista, é a presidente Dilma que a encabeça. Porque ninguém enfrentará pior situação do que ela.
Os porta-vozes de Dilma dizem que com a divulgação da lista de Janot, a crise atravessará a rua. Sairá do Palácio do Planalto para o prédio do Congresso, entrando pela porta dos fundos. Era o que mais desejava a presidente antes que a crise política detonada pelo PMDB no Congresso se juntasse à crise econômica. O Congresso devolverá a crise para o Palácio do Planalto. Isso é certo.
Não tem outro jeito. No momento, pior do que a avaliação dos políticos, somente a avaliação que os brasileiros fazem de Dilma. Lembra-se da mais recente pesquisa de opinião do Datafolha? Em dezembro último, 42% dos brasileiros adultos consideravam o governo Dilma ótimo ou bom. Em fevereiro, apenas 23%. Em dezembro, ela era sincera, segundo 73% dos entrevistados. O índice caiu para 35% em fevereiro, enquanto subiu de 13% para 54% o índice dos que a consideram falsa. Dilma é desonesta para 47% dos brasileiros. Apenas 14% acham que Dilma não sabia da corrupção na Petrobras. A maior parte (52%) acredita que ela sabia da corrupção na Petrobras e deixou que ocorresse.
Em resumo: a presidente falsa, desonesta, que sabia da corrupção na Petrobras e nada fez, e que toca um governo ruim, será a principal vítima do que atravessaremos daqui para frente. Com uma crise econômica pelo meio. E cercada de maus gestores políticos – sem falar dela mesma, que não gosta do que deveria fazer, e não disfarça a arrogância. Quem gosta de uma pessoa assim?
Governo algum gosta de marolas. Sonha sempre com um mar de almirante. No fim do seu segundo mandato, Lula batizou de “marolinha” o tsunami econômico que sacudiu o mundo. Dilma não poderá fazer o mesmo. Até porque “marolinha” ou tsunami, isso é coisa nossa. Como o é o Guaraná Fratelli Vita. Ou a ararinha azul.
Para preservar a sua e escapar ao mensalão, Lula entregou a cabeça de José Dirceu, ex-coordenador de sua campanha presidencial vitoriosa de 2002, e ex-chefe da Casa Civil. Dilma não tem cabeça valiosa para entregar. A de Lula? A corrupção sistêmica na Petrobras começou no segundo governo Lula. Mas se ele perdesse a cabeça, Dilma perderia a dela. E o PT acabaria.
A presidente incapaz de se reinventar está sozinha. Perigosamente só.
Ricardo Noblat, O Globo, 6/3/2015.

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