terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Dilma e a "Alma Coletiva"


NINGUÉM reparou no seguinte trecho do discurso de posse de Dilma:
“O nome de milhões de guerreiras anônimas que, voltam a ocupar, encarnadas na minha figura, o mais alto posto de nossa grande nação.
Encarno outra alma coletiva que amplia ainda mais a minha responsabilidade e a minha esperança”.
Note bem o termo empregado: alma coletiva. O ghost writer do discurso de Dilma deixou bem claro a quem o termo alma coletiva se endereça.
Quem entende o mínimo de história do Brasil, e o mínimo de filosofia, deve ter tido um repuxão, um vazio no fígado, um bolo duro na garganta, ao ter ouvido o termo. Porque “alma coletiva” é definição empregada pelo nacional-socialismo, pelos nazistas, pelos caudilhos. Pelo totalitarismo religioso, enfim.
Quem mais entendeu sobre alma coletiva no Brasil foi o embaixador José Osvaldo de Meira Penna, sobretudo em sua obra “Em Berço Esplêndido” (Editora Topbooks, 1999). Meira Penna mostra, como ninguém, que Getúlio Vargas, exatamente quando o Eixo assombrava o mundo na Segunda Guerra, vendia, a torto e a direito, a ideia de “alma coletiva”.
Meira Penna dissecou como ninguém os perigos da “alma coletiva” ser defendida no Brasil. E foi beber na origem de quem apontava os perigos na alma coletiva na política:  Karl Jung.
Escrita em 1936, a obra Wotan, de Jung, deixa claro os perigos da alma coletiva em política: “A psicose coletiva alemã surge a partir do louvor da imagem arquetípica de Wotan, deus nórdico pagão dos germânicos, das tempestades, da efervescência, da inspiração e da guerra”.
Segundo Jung, de Wotan corresponde a “uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um “fator” psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura”.
Tem muito líder religioso fundamentalista que adora também o termo alma coletiva. Mas o vende como “egrégora”.
Do grego egrêgorein, «velar, vigiar”, é a soma de energias coletivas.
 O Brasil não precisa de conceitos de coletividades, de “raízes nacionais” (como defenderam a vida toda os hoje ministros da Cultura, Juca Ferreira, e da Ciência, Aldo Rebelo). Quem tem raiz é planta. Coletivo é ônibus, bonde, trem e metrô.
O Brasil não precisa de “coletivos”, de “matilhas culturais”, aliás, nomes que você encontra em vários blogs, que defendem cegamente o PT, e vivem de grana pública.
O Brasil precisa de almas individuais, sem raízes, que defendem uma cultura universal, planetária, sem barreiras. Individualismo dá prêmio Nobel: não o contrário
Quem mais criticou o conceito de alma coletiva, aliás, foi o negro mais brilhante dos EUA: W.E.B. Du Bois, homem de Harvard , estudado na Alemanha. Referia que a “alma vital”, a que em alemão ele chamava de “seleleben”, ia pelo individualismo. (“O futuro será, muito provavelmente, o que as minorias raciais individualmente fizerem dele”, notou Du Bois em sua obra The Negro, 1915).
Dilma vai contra tudo isso, indica o discurso de posse.
E vou te dizer porque: porque, na brasilidade mais profunda, seja sob o PT do Mensalão barra Petrolão, seja sob o tucanato Alstom, alma coletiva quer dizer que todos bebem da mesma fonte.
Veja bem: Dilma nomeou um ministério pífio para fazer favores políticos. Que, além das benesses auferidas pelas indicações de titulares e apaniguados, são pagos pela distribuição de grana.
O Mensalão foi a pré-fixação dos pagamentos demandados pelos políticos coligados e de ocasião. O Mensalão tinha valores combinados, datas de pagamento, locais de saque. Era a corrupção tópica: local e hora de saque previamente combinados. Ainda que com uma logística complexa de repasses.
Petrolão foi a mesma coisa: as almas coletivas indo sacar o prometido. Mas, desta vez, direto no caixa da Petrobras, sem uma lógica de assalto medieval tecnicamente  tão intricada como a do Mensalão.
Agora você entende o que é a “alma coletiva” ?


Claudio Tognolli

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os culpados e as certezas


Como um delinquente bêbado, pouco mais da metade da população decidiu continuar acelerando inconsequentemente na mesma curva que seus vizinhos capotaram. Capotará também, porém, levando consigo a outra metade da população que o acompanha sentada à sua direita, no banco do carona.

Devemos ter pena dessa outra metade? Devemos vê-la como inocente? *Não.* Apesar de sua lucidez e honestidade, ela sempre foi passiva, tanto, que virou cúmplice de sua própria tragédia. Foi covarde. Teve medo de impor limites àqueles que pediram e depois assumiram o volante.

Os culpados pela reeleição de Dilma:

Fernando Henrique Cardoso por sua tolerância com as sabotagens, ofensas e calúnias que sofreu durante seu governo, o que soou aos ouvidos do PT como uma permissão para continuar com aquela estratégia de se chegar ao poder.
  
Qual foi sua atitude diante dos falsos dossiês sobre sua vida? Nenhuma.

Qual foi sua atitude com aqueles que invadiram, depredaram e saquearam (com apoio de Lula) a fazenda de sua família? Nenhuma.

 Fernando Henrique Cardoso não foi homem nem para defender sua esposa (quem dedicou sua vida a projetos sociais) das calúnias que sofreu.

Nas três eleições seguintes, José Serra e Geraldo Alckmin concorreram à presidência sem bater no PT afundado em casos de corrupção e permitindo que Lula e Dilma pejorassem as privatizações de FHC.

Nesses 12 anos de governo petista, o PSDB não apenas fez uma oposição frouxa, mas assistiu passivo o PT promovendo uma massiva campanha de desconstrução do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto os tucanos tentavam conquistar votos exibindo a beleza de suas penas, a imprensa e a Justiça também se continham diante dos desvios e afrontas da esquerda liderada pelo PT.

Temendo serem vistos como a continuidade da postura antidemocrática do regime militar, a maior parte dos jornalistas, dos meios de comunicação, dos promotores e dos juízes deram espaço e liberdade para o movimento socialista divulgar suas ideias, por mais absurdas que fossem Lula construiu carreira pregando a espoliação do capital e da propriedade privada.

Viram, passivos, o PT sendo preenchido por aqueles que defendiam o alinhamento do Brasil com todos os líderes da extrema esquerda latino-americana.

Ignoraram o Foro de São Paulo.

Assistiram o PT acolhendo e projetando politicamente ex-guerrilheiros e comunistas declarados. Livraram muitas e muitas vezes o PT e sua militância do peso da lei para evitar serem taxados de repressores.

Obviamente, artistas e intelectuais também passaram a endossar todas as ações de Lula e do PT por vê-los como um poema revolucionário que levaria progresso ao país.

Sustentando esta tolerância irresponsável estavam pequenos empresários, profissionais autônomos e assalariados comuns que tentavam construir suas vidas por si mesmos, por meio de seus esforços e talentos.

Mesmo sentindo a faca estatal lhe cutucando o pescoço com cada vez mais força por meio de impostos e burocracias, mantiveram-se indiferentes aos absurdos do governo por... não gostar de se manifestar sobre essas coisas de política; covardia que permitiu aos cretinos e canalhas ditarem o caminho que o Brasil seguiria.

Aqui estamos, assistindo uma ex-guerrilheira comunista sendo reeleita Presidente da República, ovacionada por uma militância que prefere ostentar bandeiras do PT em vez de bandeiras do Brasil.

Aécio Neves e seus eleitores foram bravos, porém, tardios. Levantaram-se apenas quando o PT já estava com a maior parte da máquina estatal trabalhando para si. Depois de tantos anos sendo complacentes com as boas intenções e com os métodos petistas, agora sentem o amarguíssimo gosto de se verem condenados a serem meros financiadores de um projeto ideológico.
Gabeira, Gullar e outros intelectuais demoraram demais para se posicionar contra os absurdos do PT.

Como símbolo da covardia da metade não corrompida do Brasil, aponto Joaquim Barbosa. Mesmo sendo reconhecido pela população como um herói por seu posicionamento no processo do Mensalão, retirou-se covardemente de cena logo quando a sociedade mais precisava dele. Foi ameaçado e caluniado de todas as maneiras pelo PT, mesmo assim se manteve distante do processo eleitoral. Teriam bastado duas ou três manifestações públicas dele em apoio ao candidato do PSDB para Dilma perder muitos votos. Mas não... Joaquim Barbosa não quis se meter na política. Prezou sua imagem. Foi covarde.

Infelizmente, foram em vão os esforços e a coragem das poucas pessoas que nestes anos todos denunciaram os absurdos do PT.

A certeza que tenho é que a metade não corrompida da sociedade voltará à sua covarde e histórica reclusão enquanto o PT acelerará a concretização de seu projeto de poder; e ninguém poderá acusá-lo de ter nos enganado.

Todos os seus objetivos sempre foram muito claros. Suas ações, seus pronunciamentos, suas alianças... Nada foi escondido.

Dilma Rousseff deixou bem claro que não mudará a condução da economia, que não enxugará a máquina pública, que não tirará nenhum companheiro das estatais, que não deixará de financiar projetos em Cuba e na Venezuela. O Brasil vai quebrar, pois o PT precisa que quebre.

Quanto pior for a situação do país, Dilma terá mais justificativas para intervir na economia, na justiça, na imprensa e na liberdade das pessoas.

O PT quer tirar o poder político e econômico da classe média para torná-la dependente do Estado.

Os ricos que não forem embora se aliarão ao partido. Anotem:

1.   Dilma forçará sua reforma política para transferir poder do Legislativo
para o Executivo e para os movimentos sociais ligados ao PT;
  
2.   Perseguirá, sem pudor, toda a Justiça e imprensa não alinhadas ao PT,
anulando os processos que estão em curso, blindando Lula de toda e qualquer acusação;
  
3.   Remodelará a constituição de modo que preserve o PT no poder;

4.   Colocará sua militância na rua para intimidar qualquer manifestação da
sociedade independente;
  
5.   Efetivará as diretrizes do Foro de São Paulo, institucionalizando um
bloco socialista de ajuda mútua entre Cuba, Venezuela, Bolívia e Argentina.

Adorarei reconhecer, daqui uns anos, que minhas projeções estão erradas mas, hoje, não me é possível enxergar como processos distintos o que acontece aqui e o que aconteceu na Venezuela, aonde a maior parte das pessoas que agora vão às ruas protestar contra o governo foram às ruas apoiá-lo anos atrás. Arrependeram-se tarde demais.

Arrependeram-se não como um delinquente depois da capotagem. Arrependeram-se como um carona que permitiu ser conduzido por um bêbado irresponsável.

Agora, lá estão os venezuelanos, presos a uma maca e sobrevivendo de soro.

Logo, o Brasil será um "país de arrependidos."

 João Cesar De Melo - Arquiteto, artista plástico e escritor.


Pior do que se poderia esperar


O discurso de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff perante o Congresso Nacional foi uma lamentável exibição de soberba, desrespeito à verdade e ao discernimento dos brasileiros e uma ducha de água fria para quem imaginava que, na hora de assumir a continuidade do comando de um país que deixou pior do que quando o recebeu quatro anos atrás, a chefe do governo tivesse um mínimo de humildade para estender a mão à metade do País que não lhe deu o voto, mas faz parte da unidade dentro da diversidade que compõe a Nação brasileira.

O que se viu assomar à tribuna do Congresso Nacional transformada em palanque no dia 1.º de janeiro foi a prepotência e o desapreço pelo contraditório democrático de uma presidente que, como o seu PT, se considera monopolista da virtude e defensora única dos fracos e oprimidos. Uma presidente e um partido que não se pejam de, contrariando a evidência dos números, das estatísticas e da própria lógica de sua estratégia de manutenção do poder, proclamar que em 12 anos eliminaram "a tragédia da fome", superaram "a extrema pobreza" e, de quebra, "apurou e puniu com tanta transparência a corrupção", como se isso dependesse apenas da vontade de Lula, Dilma & Cia. e não de instituições sólidas que a sociedade brasileira está aprendendo a construir. E, principalmente, como se o PT não tivesse tido a desfaçatez de promover a "guerreiros do povo brasileiro" seus dirigentes-delinquentes condenados no julgamento do mensalão.

O discurso de 40 minutos de Dilma parece ter saído direto do caldeirão de prodígios do marqueteiro a quem, em substituição ao Lula de 2010, coube o mérito de transformá-la em presidente reeleita. "Fui reconduzida para continuar as grandes mudanças do País e não trairei este chamado." "Este projeto de nação triunfou e permanece devido aos grandes resultados que conseguiu até agora." "É a inauguração de uma nova etapa neste processo histórico de mudanças sociais do Brasil."

Empolgada com um desempenho que imagina absolutamente prodigioso nos seus primeiros quatro anos de governo, Dilma não foi capaz de admitir sequer o menor erro entre os muitos que cometeu e dos quais a nação é testemunha, muito especialmente na área econômica e fiscal. Admitiu, no máximo, breves referências a "correção de distorções e eventuais excessos". Nem foi capaz, como seria absolutamente necessário diante da gravidade da situação, de cumprir satisfatoriamente o que prometera no discurso de diplomação: "O detalhamento das medidas que vamos tomar, para garantir mais crescimento, mais desenvolvimento econômico e mais progresso social para o Brasil".

Ao invés de esclarecer, confundiu, contrariando a equipe que nomeou para botar ordem nas contas do governo, gabando-se da redução da dívida líquida do setor público, obtida graças à "contabilidade criativa". Joaquim Levy e companheiros já deixaram claro - se Dilma permitir, é claro - que pretendem trabalhar com o conceito de dívida bruta, que traduz fielmente a realidade. Pior, Dilma não demonstrou o menor constrangimento ao garantir que sempre orientou suas ações "pelo imperativo da disciplina fiscal".

A retórica palanqueira, contudo, não obstante esmerada em arroubos de auto glorificação, não conseguiu evitar que a verdade transparecesse através das frestas da mistificação. "Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer", cometeu a imprudência de admitir, assinando a confissão de que sob o seu comando o Brasil parou de crescer. Só faltou, como sempre fez, atribuir os fracassos de seu governo não à própria inépcia, mas a uma situação internacional adversa.

Mas Dilma não se poupou de, no melhor estilo petista, inventar inimigos imaginários que precisam ser combatidos: "Vamos, mais uma vez, derrotar a falsa tese que afirma existir um conflito entre estabilidade econômica e o crescimento social".


A fala presidencial é rica, enfim, em meias-verdades, inverdades inteiras, obviedades e platitudes, mistificação, preconceitos, retórica oca. Reflete, infelizmente para a Nação, o pouco que tinha a dizer. Para completar, Dilma apresentou-se como campeã da luta anticorrupção e disse pretender estimular "uma nova cultura fundada em valores éticos profundos". Como atribuiu a roubalheira na Petrobrás à ação de funcionários miúdos e a uma conspiração internacional, já se sabe o que virá.

Editorial - O Estado de São Paulo - 3/1/2015

Entre o sonho e o pesadelo


 O país desatará, ou não, o nó da corrupção sistêmica?

Concordo com o poeta: o último dia do ano não é o último dos tempos. Mas é o amanhã, o que será do amanhã? O ano passado nos massacrou com o imprevisto, e algumas certezas se queimaram na ferrugem dos aviões caídos, nas ações da Petrobras caídas, nas cinzas maniqueístas de uma eleição presidencial.

Se os tempos continuam, a grande pergunta é: o país desatará, ou não, o nó da corrupção sistêmica? Ela explodiu no petróleo, futebol, vôlei e futsal. Se roubar fosse um esporte olímpico, nesse momento, seríamos candidatos ao ouro. Não temos, no entanto, a mínima ideia de como guardá-lo em segurança. Basta lembrar o roubo da Taça Jules Rimet.

Se os tempos continuam, será preciso trabalhar, e esse calor é infernal para muitos ofícios. Em termos de longo prazo, há uma esperança de conter o aquecimento. Não creio, por experiência própria, em grandes reuniões como a de Paris, em 2015. Mas com acordos regionais, muita preparação, quem sabe não chegamos lá, se é que ainda adianta chegar a algum lugar a essa altura dos acontecimentos.

Se os tempos continuam, é preciso continuar sonhando. Com cuidado: sonhos se transformam em pesadelos. Li uma pesquisa numa universidade do Canadá que mostra como o pesadelo nasce do sonho.

A coisa começa no hipocampo, sede da memória contextual, onde se misturam elementos de ansiedade vindos de medos vividos com outros mais tranquilizantes. Quando os elementos negativos predominam, a equação se desequilibra, o sonho vira pesadelo: a saída é acordar trêmulo e suado no meio da noite.

Sob muitos aspectos, o período que se encerra dá medo. Crimes bárbaros se sucedem, o filho chora, a mãe não ouve, crianças morrem esquecidas dentro de carros, a vaca não reconhece mais seu bezerro. Parece o fim dos tempos, mas, como o poeta lembra, é apenas o fim do ano.

Nos laboratórios do Vale do Silício se pesquisa o prolongamento da vida humana. Seremos eternos finalmente? E se pesquisa também a supressão da necessidade de governo nos círculos científicos anárquicos.

Parece fantasia, mas é verdade. Só que ainda não está ao alcance. A vida será prolongada, governos perderão importância, mas, enquanto isso não acontece, temos de cuidar bem do corpo e falar mal do poder.

Quando se olha para trás, com a perspectiva de 50 anos, e não apenas do acidentado ano de 2014, veem-se os estertores da Guerra Fria no Caribe e constata-se como o tempo tem o seu ritmo na América Latina.

O mesmo ritmo lento que atrasou, no Brasil, a abolição da escravatura e que, hoje, ainda mantém em muitos dos nossos países o horizonte burocrático do socialismo, tão severamente derrotado no século XX.

Ainda se canta a “Internacional”, se veste camisa vermelha e se elege o proletariado como o único sujeito de transformação da História.

Nesse lusco-fusco, nessa névoa de um passado que não passa, a construção do futuro é um vale tudo que dissolve todos os valores e engendra esse momento fluido entre sonho e pesadelo.

Gostaríamos de ver, mas não veremos, em 2015, a paz duradoura no Oriente Médio. Decapitações, assassinatos em massa, venda de mulheres ainda estão em voga com a presença do Exército Islâmico e seu Califado.

Obama intuiu bem ao considerar o socialismo um sonho em ruínas e o fanatismo religioso o verdadeiro pesadelo em progresso.

Começa, nesta semana, o quarto governo do PT e de seus aliados. Se compararmos o impulso com o governo Kennedy, achamos uma oposição simétrica na formação do ministério de Dilma.

Lá nos EUA, a ideia era trazer os best and brightest, os melhores e mais brilhantes da academia e da sociedade. Aqui, ela buscou intensamente a mediocridade.

Nos Esportes, contaminado pela corrupção, ela escolheu um homem que não conhece o ramo, mas foi preso num aeroporto com quase R$ 1 milhão, dinheiro, no mínimo, não contabilizado, para usar uma expressão da novilíngua petista.

Para Ciência, Tecnologia e Inovação, ela optou por um deputado que apresentou projeto contra invenções científicas que ameacem o emprego.

Para a Pesca, o jovem Barbalho, filho de Jader Barbalho, que foi preso e algemado por desvios num projeto de criação de rãs.

Das rãs às tilápias, os Barbalho terão a oportunidade de mergulhar mais fundo nas águas turvas do governo de coalizão.

Caberá a um quadro do PT, distante do tema comunicações, ocupar o ministério com o objetivo de estabelecer o controle social da mídia.

Como se a essa altura fosse possível mesmo controlar alguma coisa, no auge de um escândalo, capaz de apontar o fim, não dos tempos, mas de certas práticas de governo no Brasil.

Em 2014, foi revelada a face econômica do assalto à Petrobras. Em 2015, será revelada a face política. Como se dará a tensão entre sonho de mudança e o pesadelo da inércia?


Pelo menos, as pesquisas garantem que tanto sonho como o pesadelo nos fazem bem: protegem da realidade. Até que o despertador nos lembre, como Dom José Cavaca; acorde, já é 2015, e você precisa trabalhar.

Fernando Gabeira, O Globo, 4/1/2015

sábado, 3 de janeiro de 2015

O verde-amarelo esquecido


As cores da bandeira brasileira sempre foram o símbolo mais importante da cidadania.

Nas ocasiões cívicas, o verde-amarelo era a única cor que enfeitada as multidões, comemorando ou protestando. As cores da Bandeira do Brasil eram o fator mais relevante no visual de tais eventos.



Os presidentes brasileiros ostentavam com orgulho a Bandeira Nacional.


Com estas cores combinadas, o Brasil se enfeitava a cada quatro anos para torcer pela equipe de futebol profissional, durante as Copas Mundiais. E o time era chamado carinhosamente de “seleção canarinho.” 



Já não se viu ruas assim decoradas na Copa de 2014 . . .

Era o verde e o amarelo que o nosso grande herói contemporâneo, Ayrton Senna, ostentava para comemorar suas vitórias. Verde e amarelo era a cor do carro de Emerson Fittipaldi, quando participou da Fórmula 1 com  patrocínio brasileiro.



Verde, amarelo e azul são as cores dos aviões da Esquadrilha da Fumaça, que desperta o patriotismo da juventude, por todos os rincões do país onde se apresenta.



Porém, parece que a bandeira brasileira já não representa o sentimento da nação.

Quem não conhecesse o Brasil e visitasse o país pela primeira vez neste 1º de Janeiro, teria a impressão de que a bandeira dos brasileiros é vermelha. Pois era o que se via na capital da república.



Eleita nas urnas e rejeitada no coração da maioria dos brasileiros, Dilma Rousseff teve que recorrer aos admiradores de aluguel, que em troca refresco e sanduíche de mortadela se vestem de vermelho para tentar ocupar, sem sucesso, os largos espaços da Praça dos Três Poderes.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faltou a verdade


A desconexão entre as palavras e os fatos é uma constante nos pronunciamentos da presidente Dilma Rousseff. Raramente surpreende nesse quesito, mas, ontem, no discurso de posse no Congresso Nacional, ela superou-se em vários momentos.

Em especial quando anunciou em tom solene o lema do segundo mandato: "Brasil, pátria educadora", significando que o governo dará à educação total prioridade nos próximos quatro anos. Fosse real, essa primazia deveria necessariamente corresponder à escolha de alguém de reconhecido saber na área para comandar o ministério da Educação.

A realidade, no entanto, faz daquele emblema um mero slogan: o ministro é o ex-governador do Ceará, Cid Gomes, nomeado para contemplar o PROS (11 votos na Câmara) e recompensá-lo pela saída do PSB quando o partido deixou a base do governo.

Na fase de especulação de seu nome, Cid Gomes chegou a dizer que não queria a pasta e, depois, quando já confirmado, sua única manifestação sobre o setor foi a ideia de alterar o currículo do ensino médio. A respeito da "expertise" do novo ministro para conduzir o País à condição de "pátria educadora" nada se sabe.

Assim como não se ouviu de nenhum dos outros escolhidos para ocupar os "lotes" da Esplanada dos Ministérios uma palavra sequer sobre as políticas que pretendem executar nas respectivas áreas ou do mérito de cada um para as tarefas. O critério foi exclusivamente partidário e a distribuição feita de acordo com o número de votos de cada legenda no Parlamento.

Nesse aspecto, outro ponto do discurso da presidente em que as palavras não correspondem aos fatos: Dilma Rousseff prometeu se empenhar em prol de uma reforma política que permita a adoção de "práticas mais modernas e éticas". Isso tendo acabado de montar um Ministério com base em práticas obsoletas e antiéticas.

As promessas feitas pela presidente não correspondem à formação do Ministério. Para o bem e para o mal. Na economia, a equipe assume com a missão de cortar gastos, ajustar, equilibrar as contas e conter a inflação.

Dilma, no entanto, em seu discurso desenhou um cenário condizente com tempos de bonança total com grandes investimentos, nível de emprego crescente, salário mínimo em valorização, verbas para Estados e municípios investirem em transportes coletivos, muito dinheiro para saúde e educação, enfim, o melhor dos mundos onde não existem as dificuldades de que dão notícias as próprias medidas tomadas pelo governo.

Sobre corrupção e Petrobrás, Dilma Rousseff continuou na mesma toada da campanha eleitoral invertendo a realidade: não foi nos governos do PT que o esquema de corrupção na estatal cresceu e levou à situação que a Operação Lava Jato agora desvenda.

Na versão dela, foi graças aos governos do PT que "malfeitos de alguns funcionários" foram descobertos. A desvalorização da companhia, pela narrativa da presidente, não é resultado dos desmandos, mas produto de "um cerco especulativo".

Dificilmente Dilma poderá fazer frente aos compromissos firmados nesse discurso. Com destaque para aqueles que dependem de votação no Congresso. Como a emenda constitucional que anunciou para permitir à União atuar na segurança pública nos Estados, hoje prerrogativa dos governadores.
O loteamento de ministérios não garante votos no Parlamento - até porque o nomeado fica satisfeito, mas os não contemplados formam um grupo maior de insatisfeitos - assim como determinados discursos não têm o poder de transformar fábulas em realidade.

Com a desvantagem de afetar gravemente a credibilidade do autor. Ou autora. Nesse momento de início do 2.º mandato, era de se esperar que a presidente Dilma Rousseff se dirigisse ao País justamente no sentido oposto: falando a verdade.


Dora Kramer - O Estadão, 2/1/2015

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Dilma e o mais mequetrefe ministério da história da república


Voltar de férias é bom, quando se tem paixão pela profissão, como é meu caso. O problema é, após um interregno no exterior, tornar a encarar certas realidades brasileiras — que nos afligem justamente porque gostaríamos que “eztepaiz” fosse muito, mas muito melhor.
São tantas as mazelas que custa apreender as novas, mas avultam dados como o espetacularmente ruim desempenho das contas públicas — o pior em quase duas décadas: o governo da “presidenta” Dilma deveria economizar 99 bilhões de reais para pagar os juros da dívida que ela vem sistematicamente tornando maior, e o resultado pífio, ridículo, foi um… déficit de 19,6 bilhões. A lei imoral que retocou, num passe de mágica, as obrigações que o governo assumira para com o Orçamento não mudam essa realidade, só a tornam mais dramática.
E então começam cortes e restrições – aquilo que o PT espalhou que Aécio Neves faria –, como os anunciados ontem (arrocho no seguro-desemprego, no auxílio-doença, no pecúlio por morte, no abono do PIS), necessários para que a Previdência não vá para o buraco mas justificados pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, com reveladora fisionomia patibular, como apenas “ajustes”.
Para não falar, é claro, do escandaloso ministério de nulidades que a presidente vem montando, aos trancos e barrancos, fatiando o poder para partidos ávidos de cargos e vantagens e, curiosamente, sob um coro de reclamações dos próprios aquinhoados.
Fiz questão de pesquisar, demoradamente, os ministérios desde a proclamação da República, em 1899, e cheguei à conclusão de que nenhum — NENHUM — presidente ostentou, até hoje, um gabinete tão mequetrefe, tão insosso e com tantas figuras zero à esquerda como a Dilma versão 2015.
Mesmo presidentes medíocres, até presidentes desastrosos tiveram grandes ministros. João Goulart (1961-1964), em sua gestão destrambelhada, contou com Celso Furtado como ministro do Planejamento e, na Fazenda, com nomes de envergadura e respeitabilidade como os do ex-chanceler San Thiago Dantas ou do professor Carvalho Pinto, um dos melhores governadores da história de São Paulo.
Integraram o ministério de Fernando Collor (1990-1992), entre outros, o professor José Goldemberg, ex-reitor da USP e físico de renome internacional, Ozires Silva, criador da Embraer, o diplomata e intelectual de primeira Sérgio Paulo Rouanet, o sociólogo Hélio Jaguaribe e o cardiologista Adib Jatene, recentemente falecido e respeitado em todo o mundo.
José Sarney (1985-1990) abrigou figuras do quilate do banqueiro Olavo Setúbal, do senador e futuro ministro do Supremo Paulo Brossard, do economista Luiz Carlos Bresser Pereira e do jurista Saulo Ramos.
A mesma história havia ocorrido com presidentes apagados da República Velha, cujas eminências ministeriais poderiam ser citadas às dezenas, de Rui Barbosa a Afrânio de Mello Franco.
Com Dilma, não.
Não há traço de um Grande Brasileiro presente nesse ministério — pelo contrário.
É uma mistura de um ou outro técnico correto com políticos de segunda, perdedores de eleição recompensados com cargo público, donos de legenda cujo principal mérito é exata e somente este, anônimos que se vêem alçados a cargo ilustre única e exclusivamente por pertencerem a partidos “da base aliada” — o critério de boa gestão é o último a contar – e puras e simples nulidades.
Santo Deus, por melhor boa vontade que se tenha para com os indicados por Dilma, quais são as qualidades de gestor público do filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA) para ocupar um ministério, ainda que o da Pesca?
O que poderá fazer o ex-deputado comunista Aldo Rebelo, político experiente, sem dúvida, mas que nem curso superior concluiu, na pasta de Ciência e Tecnologia?
Na Educação — logo ali, no âmago dos problemas brasileiros — de onde será que Dilma tirou que a solução seria um populista primitivo como o ex-governador do Ceará Cid Gomes, do qual não se conhece um estudo, um discurso, um bilhete sequer que o credencie ao posto?
Além de eventualmente manipular seu smartphone, o que entende de Comunicações o ex-sindicalista bancário Ricardo Berzoini, agora ministro?
Haja paciência, como diria o grande jornalista Fernando Pedreira.
Ricardo Setti
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